17 de agosto de 2016

Afeganistão e a disputa anglo-russa

Theophilus Francis Rodenbough (1838 a 1912) foi um oficial do Exército da União na Guerra Civil Americana que recebeu a Medalha de Honra do Congresso por suas ações na batalha da Estação Trevilian (Virgínia) em junho de 1864. Depois de se aposentar do exército em 1870, Rodenbough escreveu vários livros sobre temas militares. Na primavera de 1885 ele escreveu rapidamente Afeganistão e a disputa anglo-russa, pois parecia que a Rússia e o Império Britânico estavam se preparando para entrar em guerra por causa da presença de forças militares russas na região sul de Merv (perto da atual cidade de Mary, no Turcomenistão). De acordo com algumas informações os russos estavam estabelecidos na estrada que ia para Herat, no Afeganistão, fato considerado pelos britânicos como ameaça ao Afeganistão e, através do território afegão, à Índia. Seguida de capítulos introdutórios sobre a geografia e a história recente da Ásia Central e do Afeganistão, a principal parte do livro se concentra em dois capítulos: “Forças e rotas britânicas” e “Forças e abordagens russas”. Cada um desses capítulos discute temas como organização, dimensão, distribuição geográfica, sistemas de transporte e abastecimento e liderança dos dois exércitos. O capítulo sobre o Império Britânico fala das rotas que partiam da Índia Britânica (pelo atual Paquistão, na época parte da Índia) e chegavam ao Afeganistão, pelas quais parte do exército britânico usaria para enfrentar os russos; o capítulo sobre os russos descreve as rotas que as forças russas poderiam usar para atacar Herat. No capítulo final, “Análise da situação militar”, Rodenbough aprova a ideia do tenente-general britânico Sir Edward Bruce Hamley de que os interesses britânicos seriam melhor atendidos se o combate com os russos fosse travado na linha de Candaar-Gázni-Cabul. No final, a crise de 1885 foi controlada por meio da diplomacia, não havendo guerra entre Rússia e Grã-Bretanha. O livro é ilustrado com esboços de cenas do Afeganistão e retratos de importantes figuras políticas afegãs. A obra apresenta três mapas, com destaque para um grande mapa desdobrável do Afeganistão e das áreas vizinhas, elaborado e corrigido com base nas últimas pesquisas militares.

Narrativa de uma viagem de Herat a Khiva, Moscou e São Petersburgo

James Abbott (1807 a 1896) foi um oficial do exército britânico que em 1823 partiu para a Índia. Ele participou da invasão anglo-indiana que desencadeou a Primeira Guerra Anglo-Afegã (1839 a 1842). Abbott chegou a Candaar em abril de 1839 e foi membro de uma missão política a Herat. Em dezembro de 1839 ele foi enviado a uma missão no canato de Khiva (no atual Uzbequistão), que sofria ataque de uma expedição militar russa e havia solicitado ajuda britânica. Aparentemente a expedição russa tinha como objetivo libertar escravos russos detidos pelos habitantes de Khiva e parar os ataques a caravanas, mas na verdade buscava controlar o canato. Abbott não conseguiu convencer o cã de Khiva a libertar os escravos russos, a fim de eliminar qualquer pretexto para a intervenção russa, mas conseguiu persuadi-lo a assinar um tratado que estipulava a presença de um agente britânico em Khiva e autorizava os britânicos a servirem de mediadores entre Khiva e Rússia. Em seguida, Abbott viajou a São Petersburgo para realizar a mediação. Ele deixou Khiva em março de 1840 e, depois de muitas aventuras, incluindo ocasiões em que foi atacado e sequestrado por um bando de cazaques, chegou à capital russa, onde seus esforços de mediação foram rejeitados. Ele retornou à Inglaterra e mais tarde ao seu posto na Índia. Em 1843 Abbott publicou sua obra Narrativa de uma viagem de Herat a Khiva, Moscou e São Petersburgo em dois volumes, que apresentamos aqui. O livro contém um relato detalhado da missão de Abbott, começando com sua partida de Herat e cobrindo sua viagem até o Turquestão, pela Rússia até São Petersburgo, depois Londres e, finalmente, de volta a Calcutá. O volume um contém um grande mapa desdobrável com a rota da viagem de Abbott de Herat a Khiva e depois a Orenburgo, na Rússia. Um aspecto interessante do livro são as perspectivas oferecidas por Summud Khaun, um guia afegão que acompanhou Abbott durante toda a viagem, visitando lugares não só na Ásia Central e na Rússia, mas também em Londres, Paris, Gênova, Roma, Nápoles, Atenas e outras cidades europeias no caminho de volta para a Índia. Abbott apresenta muitas observações do seu guia sobre os costumes e as condições europeias (como por exemplo a pena que o guia sente das pessoas que vivem na pobreza e miséria em Nápoles) sob o título “Summud Khauniana”. Entre 1845 e 1853 Abbott foi comissário de Hazara, na Índia, onde a cidade Abbottabad foi nomeada em sua homenagem.

Análise da situação política na Ásia Central

Muhammad ʻAbdulghani Jalalpuri (1864 a 1943), mais conhecido como Dr. Abdul Ghani, era um reformista e educador muçulmano da Índia ativo na corte do Afeganistão no início do século XX. Ele foi o secretário inglês do emir ‘Abd al-Rahman Khan (no poder de 1880 a 1901) e do emir Habibullah Khan (no poder de 1901 a 1919). O livro Análise da situação política na Ásia Central de Abdul Ghani foi escrito após o seu retorno do Afeganistão para a Índia Britânica. Publicada em 1921 em Lahore, a obra examina a evolução geopolítica na Ásia Central logo após a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Bolchevique na Rússia, e a independência total do Afeganistão alcançada em 1919. Ele argumenta que os líderes indianos precisam entender corretamente as mudanças geopolíticas na Ásia Central a fim de guiarem seu país com segurança e sucesso rumo à independência. O livro é composto de um prefácio, uma introdução intitulada “Por que a Índia deveria ter interesse na Ásia Central?”, e 12 capítulos. Os quatro primeiros capítulos lidam com o Afeganistão e seus governantes. O capítulo cinco é intitulado “Avanço russo à Ásia Central”, e é seguido por quatro capítulos que analisam, reavaliam e criticam o bolchevismo russo. Os capítulos de 10 a 12 falam sobre a “Índia e a presente luta revolucionária do mundo”, bem como as interconexões entre os desenvolvimentos na Rússia, no Afeganistão e na Índia. O livro traz dois apêndices e contém seis ilustrações retratando notáveis afegãos da época, como o emir Amanullah Khan (no poder de 1919 a 1929), vários ministros e Sardar Mohammad Nadir Khan, principal general do Afeganistão na Terceira Guerra Anglo-Afegã de 1919, e mais tarde o rei Muhammad Nadir Shah do Afeganistão entre 1929 e 1933. Abdul Ghani critica o que julga ser um mal surgido pelo “aplauso popular” e a propensão da classe política indiana em considerar a ajuda externa como um meio de obter independência. O livro termina com sugestões sobre o que nacionalistas indianos deveriam fazer para garantir a independência. O nome “Índia” usado por Abdul Ghani se refere à Índia Britânica, incluindo tanto o Paquistão (e Bangladesh) como a Índia atual.

Sudão e Afeganistão. O voto de crédito

William Ewart Gladstone (1809 a 1898) foi quatro vezes primeiro-ministro liberal da Grã-Bretanha (de 1868 a 1874, de 1880 a 1885, em 1886, e de 1892 a 1894). Uma das principais figuras políticas da era vitoriana, ele serviu no Departamento Colonial e foi três vezes Chanceler do Tesouro, ainda durante os dois primeiros anos de seu segundo governo. Sudão e Afeganistão. O voto de crédito é um panfleto que registra o texto de um discurso que Gladstone proferiu diante do Comitê de Abastecimento na Câmara dos Comuns em 27 de abril de 1885, menos de um mês após o Incidente de Panjdeh entre Rússia e Afeganistão, e três meses depois da queda de Cartum para forças de Mahdi e em seguida a morte do general Charles Gordon. No Incidente de Panjdeh, as forças russas tomaram o território afegão no sul do rio Oxus (hoje conhecido como Amu Dária), resultando num confronto com tropas afegãs e numa crise diplomática com a Grã-Bretanha, sensível às pressões dos russos sobre o Afeganistão e à possível ameaça que eles apresentavam à Índia Britânica. No discurso, Gladstone solicitou um Voto de crédito no valor de 11 milhões de libras, dos quais 6,5 milhões seriam destinados a “preparações especiais” não especificadas para reforçar a mão do Império Britânico. Com base no discurso era óbvio que tais preparativos visavam conter possíveis ameaças russas ao Afeganistão e à Índia. Os outros 4,5 milhões seriam gastos em prol da crise no Sudão. Gladstone esperava que o dinheiro do Sudão viesse sob censura, pois ele era visto como quem permitiu que o general Gordon fosse a Cartum, mas que falhou ao tentar resgatá-lo das forças de Mahdi. Em última análise, o crédito foi aprovado. O discurso foi publicado em 1885 pela Associação Central dos Liberais da Grã-Bretanha.

Narrativa da guerra no Afeganistão, entre 1838 e 1839

Narrativa da guerra no Afeganistão, entre 1838 e 1839, de Sir Henry Havelock (1795 a 1857), é um relato de dois volumes da Primeira Guerra Anglo-Afegã (1839 a 1842) baseado nas experiências pessoais de Havelock enquanto serviu como capitão do 13º Regimento e ajudante de ordens do major-general Sir Willoughby Cotton, comandante da Divisão de Bengala do Exército do Indo. Em dezembro de 1838 os britânicos invadiram o Afeganistão partindo da Índia com o objetivo de derrubar o governante afegão emir Dost Mohammad Khan e substituí-lo por Shah Shuja‘, um ex-governante supostamente pró-britânico. No início os britânicos tiveram sucesso, entronizando Shah Shuja‘ como governante em Jalalabad e forçando Dost Mohammad a fugir do país. Mas em 1841 Dost Mohammad retornou ao Afeganistão para liderar uma revolta contra Shah Shuja‘ e os invasores. Após sérias derrotas das forças de ocupação, os britânicos enviaram da Índia uma tropa maior para se vingar e recuperar reféns, antes de finalmente se retirar em outubro de 1842. Publicado em 1840, o livro de Havelock cobre apenas os dois primeiros anos da guerra, não incluindo a insurgência iniciada em 1841. No primeiro volume, Havelock narra os preparativos para a guerra, a aliança britânica com o líder sikh Ranjit Singh, e a marcha do Exército do Indo a Candaar e a ocupação da cidade. O segundo volume narra a chegada da Divisão de Bombaim a Candaar, a marcha conjunta a Cabul e a queda da cidade, e as escaramuças com membros de tribos afegãs ao redor do Passo Khyber enquanto o exército saía de Cabul e prosseguia para o Indo. Um esboço cartográfico mostra a rota tomada pelo Exército do Indo. O apêndice no final do volume dois apresenta os textos de várias ordens militares e outros documentos históricos. Havelock continuou servindo com destaque na Rebelião dos Sipais (1857 a 1859), onde morreu por conta de ferimentos sofridos no primeiro ano do conflito.

Agentes britânicos no Afeganistão

Agentes britânicos no Afeganistão é um panfleto escrito por Sir Owen Tudor Burne e impresso por ele mesmo em 1879 em Londres, e que fez parte do debate britânico sobre as origens e justificativas para a Segunda Guerra Anglo-Afegã (1878 a 1880). Burne foi um oficial do exército que depois de prestar serviços militares na Índia durante a Rebelião dos Sipais (1857 a 1859), ocupou diversos cargos no governo indiano, inclusive como secretário particular de Earl Mayo, vice-rei da Índia entre 1869 e 1872, e de Lord Lytton, vice-rei entre 1876 e 1880. A causa imediata da invasão britânica ao Afeganistão foi a notícia de que o emir Sher Ali Khan teria se recusado a receber uma delegação de oficiais britânicos, após ter recebido uma missão da Rússia no verão de 1878. Críticos da guerra argumentaram que o governo conservador do primeiro-ministro Benjamin Disraeli e do vice-rei Lord Lytton havia provocado a guerra ao alterar a política britânica anterior em que Sher Ali, afirmam os críticos, não deveria ser pressionado a aceitar agentes ou oficiais britânicos residentes no Afeganistão. Agentes britânicos no Afeganistão apresenta um argumento detalhado mostrando que tais críticas estavam incorretas. Burne baseia seu argumento na documentação existente e em suas lembranças de reuniões com autoridades afegãs das quais participou. Como ponto de partida ele usa uma carta publicada no Times, de Londres, pelo Duque de Argyll (de 1823 a 1900; secretário de estado na Índia de 1868 a 1874), em que Argyll afirma que Lord Mayo havia prometido ao emir “que nenhum oficial europeu seria estabelecido como residente em suas cidades”. Essa promessa foi supostamente feita em 1869 durante uma reunião com Sher Ali em Umballa (atual Ambala, no Paquistão). Burne afirma que a promessa foi feita apenas como uma política “intermediária”, e não como observância perpétua, sendo mencionada antes do envolvimento da Rússia em assuntos afegãos. Ele também diz que o emir estava preocupado principalmente com a presença de oficiais britânicos na capital, Cabul, mas que teria aceitado de bom grado residentes britânicos em Balkh, Herat ou Candaar. A autobiografia de Burne, Memories, publicada em Londres em 1907, contém informações adicionais sobre seu envolvimento na política britânica em relação ao Afeganistão nesse período.