29 de abril de 2016

Exercícios “mufradat”

Este fragmento caligráfico dá forma a uma página-tapete iluminada, que combina mufradat (exercícios com letras) em três linhas horizontais e trechos poéticos persas escritos diagonalmente entre cantos triangulares coloridos (chamados “abas para polegares”). É o primeiro de dois fragmentos do mesmo álbum incompleto mantido nas coleções da Biblioteca do Congresso. Álbuns de exercícios mufradat incluem al-huruf al-mufradah ou, na tradição otomana, huruf-i muqatta‘a (as letras individuais) do alfabeto árabe em sequência, seguidas por letras em sua forma composta, chamadas na tradição turca de murekkebe (literalmente “pares”). Esses livros de exercícios surgiram no século XVII em territórios otomanos e persas. Eles eram usados como modelos de caligrafia para apresentar a prática de husn al-khatt (bela escrita) aos estudantes, e registram o processo de transmissão de conhecimento caligráfico ao longo dos séculos. Este fragmento inclui combinações de letras duplas, com as letras h, s gutural e sh, e as letras subsequentes do alfabeto dispostas em três listas horizontais. Uma série de versos persas de vários autores aparece logo abaixo de cada lista horizontal de letras compostas. Um é identificado com o epíteto Saʻd al-Haqq wa-al-Din, que talvez se refira ao grande poeta persa Sa‘di (falecido em 1292). A faixa horizontal mais abaixo, com motivos num fundo azul-escuro e duas rodelas douradas recortadas, é composta por dois painéis retangulares cortados de outra obra e colados na folha. Este procedimento revela que os materiais eram tirados de outras fontes e “reciclados” em outras obras, como este exercício com letras para poesia. Na margem direita aparece o número 13, indicando que o fólio provavelmente era uma de várias páginas de um álbum atualmente disperso.

Levha (painel)

Este levha (painel caligráfico) declara: “Ya ʻAli, ruhi fadakah” (Oh, ‘Ali, meu espírito está sacrificado a Ti). As letras estão dispostas artisticamente para preencher o painel caligráfico, dificultando bastante a leitura da frase. Diacríticos (sinais de vocalização) também preenchem os espaços vazios da composição. Embora o significado seja menos importante que a forma, esta frase vocativa que exige lealdade a ‘Ali ressalta a mensagem xiita do painel. Na margem vertical esquerda, o artista, Muhammad Ibrahim, incluiu seu selo e datou sua composição de 1134 A.H. (1721 ou 1722). As margens verticais direita e esquerda estão decoradas com papel ebru ou abri (marmorizado) azul e branco, e um papelão grosso coberto por um papel rosa dá firmeza à composição. A margem esquerda traz o número 205, indicando que este fragmento caligráfico em particular era apenas um de vários espécimes similares que formavam um álbum de caligrafias. A impressão de selo quadrado de Muhammad Ibrahim aparece em outro fragmento caligráfico mantido nas coleções da Biblioteca do Congresso, que inclui uma cópia invertida da expressão: “ʻAli wali Allah” (‘Ali é o Vice-Regente de Deus). Painéis caligráficos xiitas como estas duas obras de Muhammad Ibrahim são encontrados no Irã e na Índia, e faziam parte de álbuns ou eram exibidos em paredes.

Anotação sobre a construção de um “Takiyah-khanah”

Este grande pedaço de papel, formado por várias folhas individuais coladas, inclui quatro versos em escrita nasta‘liq. Na parte superior aparece o número 786, que no sistema abjad (número textual) equivale à soma total das letras que aparecem no bismillah (em nome de Deus). Em outras palavras, o número 786 no topo da página funciona como a invocação “Em louvor a Deus, o Misericordioso, o Clemente”, logo antes do conteúdo principal do texto. Os quatro versos abaixo afirmam que certo Muhammad ‘Ali ordenou a construção de um edifício destinado aos serviços de dhikr (homenagem) e às cerimônias de matam (luto) do martírio de Imam Husayn. Esses edifícios são chamados de takiyah ou takiyah-khanah, e servem para realizar a apresentação de ta‘ziyah (teatros da paixão xiita), que retratam os eventos em Karbala em 680. Os takiyahs foram construídos pelas comunidades xiitas no Irã e na Índia durante os séculos XIX e XX. Um dos mais famosos foi erguido sob ordens de Muʼavin al-Mulk em Kermanshah (sudoeste do Irã) em 1895 e 1896. Um complexo ricamente decorado e com várias salas, este edifício foi feito para a realização de vários eventos e apresentações religiosos ligados ao martírio de Imam Husayn.

Versos de Amir Khusraw Dihlavi

Este fragmento caligráfico inclui uma série de versos escritos pelo poeta Amir Khusraw Dihlavi (por volta de 1253 a 1325), cujo nome aparece no canto superior direito do painel de texto central como “li-Amir Khusraw”. Os versos descrevem a permanência do amor como um botão de flor num florescer perpétuo, e declaram: “Tão bonita e agradável no jardim de rosas / (Que Deus coloque) um espinho nos meus olhos, se uma delas (as flores) for semelhante a ti / Eu entro e saio do jardim centenas de vezes / (e) por causa de minha angústia, não sei qual flor está florescendo / A poeira de Kisra se tornou uma flor e a coroa cravejada de joias virou pó / O nome da amada ainda (permanece) em cada porta e em cada parede”. O painel de texto é cercado por uma série de outros versos dispostos num fundo rosa ou azul, com desenhos dourados e colado numa folha maior de papel azul com cervos e flores dourados. A obra está firmada com um papelão colocado por trás. No canto inferior esquerdo e nas duas linhas horizontais de texto, abaixo do painel central, o calígrafo, Muhammad Husayn al-Katib ( “o escritor”), assinou a obra com suas abreviações e registrou um pedido de perdão a Deus pelos seus pecados. Ele também afirma que concluiu o painel caligráfico no ano 998 A.H. (1590). Tudo indica que Muhammad Husayn esteve ativo durante o reinado safávida de Shah ‘Abbas I (no poder de 1587 a 1629).

Carta de um amigo

Este fragmento caligráfico contém uma carta incompleta de um homem ao seu amigo finamente escrita em shikastah-nastaʻliq, típica de composições do século XVIII provenientes da Pérsia (Irã). Emoldurado por faixas de nuvens e num fundo dourado com motivos de vinha azuis, o texto é composto por quatro versos. Começando com uma invocação a Deus, Huwa, (Ele) no canto superior direito, a carta exprime: “Porque faz muito tempo / Que não (consigo) escrever uma carta digna, / Porque um amigo entre amigos quer escrever a / Pessoas amáveis para descobrir como elas estão passando. . . .”.

Início de “Gulistan”, de Sa‘di

Uma obra didática tanto em prosa como verso, a famosa Gulistan (Jardim de rosas) foi composta em 1258 pelo poeta e prosador persa Shaykh Saʻdi Shirazi (por volta de 1213 a 1292), contemporâneo do famoso poeta Jalal al-Din Rumi (de 1207 a 1273). Ela contém uma série de histórias moralistas que muito se assemelham às fábulas do escritor francês Jean de La Fontaine (de 1621 a 1695). Nos territórios persas, as máximas de Sa‘di eram altamente valorizadas e manuscritos da sua obra eram amplamente copiados e ilustrados. Sa‘di menciona que compôs Gulistan para ensinar as regras de conduta na vida, tanto a reis como a dervixes. A obra, que inclui oito capítulos, uma introdução e uma conclusão, foi usada como ferramenta de instruções e comentários. Cada capítulo narra uma série de histórias, máximas e admoestações. Este fragmento é a primeira página da introdução de Gulistan, iniciada por um bismillah (Em nome de Deus), no topo, e seguido por um louvor que Sa‘di oferece a Deus. Ele declara: “Louvai a Deus de Majestade e Glória. Obediência a Ele é uma causa de postura e gratidão de crescentes benefícios. Cada respiração prolonga a vida e cada expiração alegra nossa natureza. Cada respiração concede dois benefícios e para cada benefício se deve gratidão: quem que com a mão e com a língua pode oferecer ações de graças a Ele?”. Executado num papel ebru ou abri (marmorizado) branco e marrom, o texto está escrito em ta‘liq preto. Essa escrita cursiva fluida é típica de composições indianas do século XVIII. Traços vermelhos servem para separar visualmente as linhas do texto, tanto na diagonal como na vertical. O texto é contornado por uma margem de cor salmão e colado num suporte de papelão decorado com um papel roxo-claro.