29 de abril de 2016

Versos de Jami

Este fragmento caligráfico inclui versos compostos pelo famoso poeta persa Jami (falecido em 1492 [897 A.H.]), cujo nome aparece no painel horizontal inferior escrito com o verso: “Jami não tenta buscar fama”. Nos dois registros diagonais no painel de texto central, os versos descrevem a união mística com Deus: “Se seu desejo é encontrar, então diga / Se precisa de algo de Deus, então diga / Quando o místico [ou seja, o “embriagado de êxtase”] ouviu o nome do Senhor / Ele suspirou e expirou da recordação de Deus”. Os versos estão em caligrafia nasta‘liq preta em papel bege, emoldurados por faixas de nuvens num fundo dourado. Os espaços deixados em aberto pelo cruzamento dos registros diagonais e da estrutura interna estão preenchidos com iluminura azul, dourada e preta. O painel de texto é emoldurado com várias margens, incluindo uma pintada de branco e dourado com versos inscritos em registos independentes. O quadro externo é azul-escuro e decorado com flores brancas e vermelhas; ele é colado numa folha de papel cor-de-rosa mais larga ornamentada com flores douradas e reforçado por trás com um papelão. O fragmento não apresenta data nem assinatura. No entanto, parece ter sido produzido no Irã do século XVI ou XVII e mais tarde adicionado a um muraqqaʻ (álbum) de caligrafias.

Eulogia a um governante

Este fragmento caligráfico inclui um na’t (eulogia) persa a um rei, descrevendo-o como a sayah (sombra) de Deus na terra. Os versos dizem: “Oh, Deus, Tu tens olhado (para baixo) com misericórdia / Pois estendestes essa sombra para as pessoas / Como um escravo eu procuro tua bondade / Oh, Deus, Tu és sombra eterna”. Os versos estão em escrita nasta‘liq preta emoldurados por faixas de nuvens numa folha de papel bege com um fundo dourado. No canto superior direito há uma invocação a huwa al-hadi (Deus como o guia), numa caligrafia conhecida como khatt al-taj (literalmente, escrita de coroa), em que as letras se entrelaçam para formar pequenas coroas decorativas. Khatt al-taj é uma invenção caligráfica bem recente, geralmente aparecendo em amostras produzidas durante os séculos XIX e XX. No canto inferior esquerdo do painel de texto, o calígrafo assinou sua obra com a seguinte inscrição: fidavi dargah Muhammad Husayn tab' namud (o dedicado escravo à [sua] presença [ou corte], Muhammad Husayn o assinou [fez]). Apesar de não haver registros, Muhammad Husayn pode ter sido um calígrafo ativo no Irã ou na Índia na virada do século XX.

“Sarloh” (frontispício) iluminado

Este frontispício iluminado de página dupla fazia a abertura de um texto que nunca foi transcrito. Ele foi provavelmente produzido para acompanhar um épico poético persa, como o Khamsah (Quinteto) de Nizami ou o Shāhnāmah (Livro dos Reis), de Firdawsi. Também é possível que o frontispício tenha servido de moldura para as páginas introdutórias de um texto histórico ou tratado exegético. O layout não se enquadra na composição do início de um Alcorão, que normalmente inclui um medalhão central usado para o primeiro capítulo intitulado al-Fatiha (A abertura). A iluminura encontrada aqui se chama sarlawh ou sarloh, que literalmente significa um quadro ou painel no topo de uma página. O painel decorativo na parte superior do lado direito do fólio é ostensivamente ornamentado com remates entrelaçados e arabescos geométricos, com tons de base que alternam entre azul, dourado e vermelho. Logo abaixo do sarloh há uma cártula retangular dourada deixada em branco, mas originalmente incluída para registrar o título da obra. Margens com videiras de folhas e flores contornam os fólios; seus tons rosa-claro e azuis dão à composição uma qualidade cintilante. Tal iluminura, com sua combinação de vermelhos e azuis, bem como os tons azuis e rosa mais leves, aparece em manuscritos persas do século XVIII. Ao contrário de desenhos anteriormente iluminados, dominados por tons azuis-escuros e pretos, a paleta dessa peça é mais leve e revela algumas das inovações nas cores em frontispícios iluminados após o declínio do estilo timúrida.

“Bayts” (versos) de poesia

Nas coleções da Biblioteca do Congresso, este fragmento caligráfico especial é o único que não utiliza nenhuma tinta. O texto está escrito num estilo conhecido como khatt-i nakhani (caligrafia à unha), em que o escritor utiliza a unha ou uma caneta de metal para criar impressões topográficas numa folha de papel monocromática (geralmente branca). Embora pouco se saiba sobre essa prática de caligrafia sem tinta, vários exemplares assinados e datados mantidos em coleções internacionais (por exemplo, na Biblioteca Pública de Nova York, no Museu Histórico de Berna, na Suíça, e no Palácio do Golestan, em Teerã) provam que o estilo khatt-i nakhani teve sucesso durante o século XIX na Pérsia (Irã). Pelo menos três álbuns foram produzidos pelo calígrafo ʻAli Akbar Darvish de 1849 a 1851 para o governante qajar Nasir al-Din Shah (no poder de 1848 a 1896), embora até a filha do governante Fath ʻAli Shah Qajar (no poder de 1797 a 1834), Fakhr-i Jahan, dominasse a técnica com maestria, tendo ela própria produzido um álbum com dez caligrafias e pinturas à “unha”. Possivelmente ligada ao aumento da litografia e da imprensa, essa prática qajar descarta as ferramentas tradicionais do cálamo e da tinta em favor de uma abordagem mais abstrata e experimental no sentido de caligrafia. Este exemplo específico de khatt-i nakhani em caligrafia nasta‘liq inclui um bayt (verso) de poesia nas linhas dois e quatro, que está relacionado a dois bayts tak (versos individuais) nas linhas um e três. Embora difíceis de decifrar, os versos descrevem a vida errante humana. As linhas dois e quatro dizem: “(Pois) um amigo colocou uma corda em volta do meu pescoço, / E me arrasta para onde quiser”. As linhas um e três dizem: “Não tenho escolha em meus percursos: / Às vezes ele faz da minha casa uma Caaba, e às vezes um mosteiro”.

Cilada do amor

Este fragmento caligráfico inclui uma série de versos poéticos escritos na diagonal, horizontal e vertical em painéis separados com papel bege e dourado. Dois painéis horizontais dourados na parte superior e inferior incluem os seguintes bayts (versos): “Seu corpo que está dentro da (sua) camiseta, / ‘É único, e não tem igual’; que corpo é!”. Aproveitando o potencial simbólico da expressão árabe para proclamar a unidade de Deus, “Ele é único e não tem companheiro”, o poema descreve a beleza divina do ser amado. No painel de texto principal, um ruba‘i (quarteto) escrito na diagonal em caligrafia nasta‘liq grande e preta descreve a humilhação da paixão indomada do amor: “Tu vieste cavalgando e caçou meu coração e meu corpo para si / Cortou a corda da razão e atou-a na paixão do cavalo / Eu estava escondendo meu choro no meu manto, (e) de repente tu passaste embriagado (de amor) / Caí em desgraça; eu com um manto molhado e centenas de outros com manto(s) limpo(s)”. Na parte dourada no canto inferior esquerdo do painel de texto principal há a assinatura de uma pessoa chamada Muhyi, que afirma ser o autor do texto e pede perdão por seus pecados. Muhyi pode ser identificado tanto como Muhyi al-Din al-Khurasani ou Mawlana Muhyi, ativo por volta de 1550 a 1600. É provável, portanto, que este fragmento tenha feito parte de um muraqqa‘ (álbum) de caligrafias produzido durante o período safávida no Irã.

Versos de Baba Tahir

Este fragmento caligráfico inclui vários trechos de prosa e verso. No painel central azul, versos de Baba Tahir, poeta persa do século XI, descrevem sua impotência e inferioridade: “Eu sou aquela formiga que é esmagada com os pés / Não a abelha de cuja picada todos sofrem”. Outros versos persas aparecem tanto acima como abaixo do painel central, e à esquerda, na vertical, um registo apresenta uma elaborada du‘a’ (oração em prosa) desejando ao rei prosperidade e felicidade. Os textos estão escritos em estilo nasta‘liq preto em papéis de cores variadas decorados com desenhos dourados, cortados individualmente e colados para formar uma composição. Áreas triangulares sem escritos e formadas pela interseção das linhas diagonais do texto e de quadros retangulares são preenchidas com iluminuras azuis e douradas. O painel de texto inteiro está colado num papel maior de cor creme, decorado com pinguinhos dourados e firmado com um papelão. O fragmento não apresenta data nem assinatura. No entanto, ele parece ter sido produzido no Irã do século XVI ou XVII e mais tarde adicionado a um muraqqaʻ (álbum) de caligrafias.