27 de outubro de 2016

Três textos sobre arquitetura da antiguidade clássica: Os livros de Vitrúvio, Carta ao Papa Leão X de Rafael, Fragmentos de escrita

As ideias do Alto Renascimento foram realizadas em Roma durante o papado de Leão X (de 1513 a 1521), um grande patrono das artes da casa da família Medici. O artista Rafael (de 1483 a 1520), que começou a trabalhar em Roma em 1508, teve muitas encomendas neste período. Após a morte de Bramante em 1514, Rafael foi nomeado arquiteto da reconstrução da Catedral de São Pedro e, em seguida, também passou a ser inspetor das ruínas antigas de Roma. Ele usou as obras da antiguidade clássica para ajudar a resolver problemas arquitetônicos práticos. Rafael hospedou em sua casa o humanista Fabio Calvo, que a pedido de Rafael traduziu o manual arquitetônico do grande romano Vitrúvio. Em seguida ele começou a reconstruir o plano da antiga cidade de Roma por meio de pesquisas e escavações. O manuscrito que apresentamos aqui contém as traduções de Calvo para o italiano da obra de Vitrúvio. Com estes manuscritos também está encadernado o texto da famosa carta a Leão X, registrando um apelo pela preservação dos monumentos antigos romanos. Hoje se sabe com certeza de que Rafael é o autor dessa carta, provavelmente com alguma ajuda do cortesão e escritor italiano Baldassare Castiglione. A carta claramente estabelece um método de registro dos edifícios nas seções: plano, elevação e corte transversal. Os trabalhos no projeto de Rafael foram interrompidos devido a sua morte prematura e pelo saque de Roma em 1527, mas essa notável carta permanece como a base da arqueologia científica. Estes dois importantes manuscritos eram de Pietro Vettori, quando em 1783 foram adquiridos para a biblioteca da corte por Carlos Teodoro, príncipe-eleitor do Palatinado e da Baviera.

Paixão de Stöger: o sofrimento de Cristo

A chamada Paixão de Stöger foi o primeiro livro a ser impresso na Baviera e provavelmente o primeiro incunábulo ilustrado, sendo anterior até mesmo à edição de Albrecht Pfister da obra Edelstein de Boner, datada de 14 de fevereiro de 1461, bem como da Biblia pauperum (Bíblia dos pobres) de Pfister, de aproximadamente 1462 a 1463. O nome do livro é uma homenagem a Franz Xaver Stöger o Jovem, provavelmente filho de um leiloeiro de Munique, que desde 1831 tinha bons contatos comerciais com a biblioteca de Munique e divulgou a obra pela primeira vez em 1833. O livro foi impresso com tipos móveis semelhantes aos utilizados na Bíblia de 36 linhas e na Bíblia de Gutenberg, e que também foram usados num almanaque de Viena para o ano de 1462. A obra é decorada com 20 cortes de metal que ilustram a Paixão de Cristo. Precedendo a Paixão de Stöger, o volume contém uma edição das Sete Alegrias de Maria, obra impressa com o mesmo tipo e ilustrada da mesma forma com cortes de metal. A cópia de Munique é o único exemplo completo desta obra, dos quais sabe-se que existem sete edições diferentes: seis em alemão e uma em italiano. Antes da aplicação em trabalhos de impressão, os cortes de metal haviam sido usados para ilustrar livros manuscritos de orações. Criadas antes que essa edição fosse impressa em 1461, essas imagens são semelhantes às de Meister der Spielkarten (Mestre das Cartas de Jogo), um artista ativo na área do Reno Superior e, portanto, muitas vezes consideradas originárias dessa região. No entanto, como as imagens impressas tinham bastante mobilidade (os desenhos deste artista em particular foram, na verdade, distribuídos da Inglaterra para Viena), e visto que os manuscritos e as edições impressas deste texto foram escritos num dialeto bávaro central, é possível que os cortes de metal também sejam originários da Baviera. A primeira edição do pequeno livro de orações com suas ilustrações de corte de metal alcançou tanto sucesso que logo em seguida foi feita uma cópia, que, por sua vez, serviu para produzir livros similares com textos manuscritos ou xilogravados.

Advertência à cristandade contra os turcos

Logo após a tomada de Constantinopla pelos turcos comandados pelo sultão Mehmed II em 29 de maio de 1453, diversos escritores na Europa convocaram os governantes da Europa a defenderem a cristandade. A nova arte de impressão serviu para propagar tais convocações. Foi então na oficina de Johann Gutenberg, impressor da famosa Bíblia de 42 linhas que leva seu nome, que o primeiro panfleto político em alemão sobre este tema foi impresso com o título Eyn manung der cristenheit widder die durken (Advertência à cristandade contra os turcos). O panfleto subsiste numa única cópia nas coleções da Biblioteca Estatal da Baviera. É a mais antiga impressão completamente intacta produzida com o tipo de impressão móvel conhecido como “Urtype” de Gutenberg ou “Donat-Kalender-Type”. O pequeno livro que contém seis folhas no tamanho in-quarto também é conhecido como o Türkenkalender (Calendário turco), pois Gutenberg o apresentou na forma de um calendário estruturado de acordo com as 12 luas novas do ano de 1455. Depois de uma oração introdutória, para cada mês o calendário aconselha um príncipe clerical ou secular a resistir aos turcos. Os versos finais do mês de dezembro anunciam a notícia de uma vitória recente contra o inimigo, propagada através de uma carta escrita pelo Papa Nicolau V em 25 de outubro de 1454, à dieta em Frankfurt, cuja intenção era incentivar a assembleia a se unir contra os turcos. No entanto, a carta não alcançou seu objetivo, uma vez que chegou a Frankfurt tarde demais para a sessão da dieta e acabou sendo lida em 6 de dezembro de 1454, para a assembleia das cidades que haviam se reunido posteriormente em Frankfurt. Türkenkalender termina com uma oração e um desejo de Ano Novo para o ano de 1455, a primeira saudação conhecida desse tipo. Como em Mainz considerava-se que o Ano Novo começava no dia de Natal, podemos determinar com certa exatidão a data de produção desta cópia como 1454, depois do dia 6 e antes do dia 25 de dezembro. A cópia exclusiva do Türkenkalender pertencia originalmente ao humanista Konrad Peutinger (de 1465 a 1547). Ela foi descoberta no colégio dos jesuítas em Augsburgo em 1806, de onde mais tarde foi enviada a Munique.

“Oitavo Livro de Arquitetura” de Serlio

Sebastiano Serlio (de 1475 a 1554) nasceu em Bolonha e formou-se pintor e arquiteto em Roma e em Veneza. Em 1541 ele começou a trabalhar na França, em Fontainebleau e em Lyon. A importância duradoura de Serlio ocorre devido aos seus escritos teóricos sobre arquitetura, que representam uma fonte importante para a arquitetura italiana e francesa renascentista. A maioria dos seus oito Libri de architettura (Livros de arquitetura) planejados foi publicada durante sua vida. No entanto, dois manuscritos permaneceram inéditos, e já em 1571 passaram a fazer parte da biblioteca recém-fundada do duque Alberto V da Baviera. Só depois de 1966 é que um deles, o Sesto libro (Sexto livro; Biblioteca Estatal da Baviera, Cod. icon. 189) foi publicado em fac-símile. O outro códice, apresentado aqui, contém esboços de Serlio do seu Ottavo libro (Oitavo livro), versando sobre a construção de fortificações, que provém da descrição de um acampamento romano na história universal do historiador grego Políbio. O mais importante é a inclusão de “Della castramentatione di Polibio ridutta in una citadella murata” (Reconstrução de um acampamento militar romano descrito por Políbio como uma cidadela murada, no fólio 1), cujo plano, retirado de um assentamento militar inspecionado em “Datia” (a província romana de Dácia), ele havia adquirido de Marino Grimani, patriarca de Aquileia. Serlio esboçou para o projeto planos detalhados e elevações de edifícios individuais, de acordo com suas concepções de arquitetura clássica.

Bíblia de Koberger

Depois da Bíblia de Mentelin datada de 1466, a Bíblia de Koberger de 1483 é a nona versão alemã da Bíblia a ser impressa e a segunda a ser produzida em Nurembergue, depois da Bíblia de Sensenschmidt de aproximadamente 1476 a 1478. Para a esplêndida decoração de sua edição, Anton Koberger (por volta de 1440 a 1513) usou as xilogravuras feitas para a Bíblia impressa em Colônia por Bartholomaeus de Unckel em 1478 e 1479, que ele próprio havia ajudado a financiar. A primeira xilogravura, que precede o livro de Gênesis, descreve a criação de Eva no Paraíso e ocupa quase uma página inteira. Ao contrário de Günther Zainer, que já tinha usado xilogravura de iniciais historiadas em sua Bíblia de 1475-1476, Koberger permitiu que as iniciais pintadas fossem fornecidas por um rubricador ou iluminador. Como outros exemplares desta edição, o que apresentamos aqui foi ricamente iluminado com cores de têmpera e motivos de ouro batido, bem como mais de 70 letras iniciais com têmpera, ouro ou prata, e decorações de folhas de acanto para marcar o início de cada livro bíblico e das cartas apostólicas. As iniciais no começo do livro de Gênesis (fólio 5, reto) e de Provérbios (fólio 296, reto) são especial e generosamente decoradas, com bustos dos profetas, anjos portadores de insígnias vazias e animais preenchendo as extensões do folhado. O pintor foi treinado na escola de Johann Bämler em Augsburgo (por volta de 1435 a aproximadamente 1503). Miniaturas muito parecidas com as encontradas na Bíblia de Koberger estão presentes num missal manuscrito datado de 1490, na Biblioteca Nacional da Áustria em Viena. Somente através de uma investigação mais extensa da decoração dos incunábulos impressos por Koberger é possível determinar se o iluminador trabalhou em Augsburgo ou em Nurembergue. Pelo menos, parece que o exemplar na Württembergische Landesbibliothek em Stuttgart foi colorido e iluminado por um pintor diferente, que muito provavelmente trabalhou para Koberger em Nurembergue.

Atlas náutico de Battista Agnese

Battista Agnese (de 1514 a 1564) foi um geógrafo e cartógrafo magistral. Nascido em Gênova, trabalhou em Veneza de 1536 a 1564 e tornou-se uma das figuras mais importantes na cartografia renascentista. Pesquisadores divergem sobre o número total de atlas manuscritos criados por Agnese; ele produziu pelo menos 39 atlas portulanos, ou marítimos, dez deles assinados e datados. Todos se distinguem pela elegante caligrafia e são estimados por sua qualidade e beleza de alto nível. Nenhum dos atlas foi produzido para o uso a bordo do navio; serviram como presentes cerimoniais e como adornos para as bibliotecas dos abastados. Este atlas contém 20 páginas de mapas. Um ex libris heráldico da biblioteca da corte em Munique aparece na frente do livro, seguido por tabelas de declinação e pelo zodíaco. No mapa do mundo oval, os continentes aparecem em verde, com demarcações um tanto hipotéticas da América do Norte e do Sul. Querubins, ou cabeças de vento, que representam os clássicos 12 pontos cardeais de onde as direções modernas da bússola evoluíram, aparecem em volta do mapa. Outros mapas mostram os oceanos Pacífico, Atlântico e Índico, e os mares Báltico, Mediterrâneo e Negro. Uma característica de todos os atlas de Agnese é o registro das rotas de viagem no mapa do mundo. A impressão de Munique apresentada aqui mostra, em azul, a viagem de Magalhães pelos estreitos nomeados em sua homenagem de Lisboa até as Molucas, e a viagem de volta do único navio sobrevivente em torno do Cabo da Boa Esperança (de 1519 a 1522). Uma segunda linha — ligeiramente perceptível, originalmente desenhada na cor prata — traça a viagem de 1521 de Pizarro, que começou em Cadiz, na Espanha, e atravessou o istmo do Panamá até chegar à costa oeste da América do Sul, inaugurando assim a conquista espanhola do Peru.