8 de agosto de 2014

Carta de Damar Wulan

O Serat Damar Wulan (MSS.Jav.89) é um dos mais belos manuscritos indonésios da Biblioteca Britânica, com um tesouro de ilustrações que retratam a sociedade javanesa no final do século XVIII. As imagens são cheias de humor e o artista possuía um olhar fantástico para expressões faciais e posturas corporais (por exemplo, uma mulher dormindo com seu braço sobre os olhos, uma sandália equilibrada em um pé). Objetos quotidianos são retratados em detalhes fascinantes, desde gaiolas para pássaros até vasos de jardim e tecidos, com incríveis cenas de música e dança, de grande interesse para os artistas performáticos dos dias de hoje. Uma nota em inglês contemporâneo, que acompanhou a doação do manuscrito em 1815, afirma: “Diz-se que este livro tem 200 anos”, mas, de acordo com Dr. Russell Jones, as marcas d'água das páginas já muito folheadas e sujas, em papel holandês, “J HONIG” e “J H & Z”, só puderam ser encontradas em manuscritos indonésios datados de entre 1800 a 1855, e, portanto, uma data do final do século XVIII é mais provável para este manuscrito. Estudiosos mais antigos dos textos javaneses prestavam pouca atenção aos aspectos artísticos dos manuscritos, mas o Serat Damar Wulan se mostrou irresistível. O manuscrito começa pela ascensão da filha de Brawijaya (Kusuma Kancana Wungu) ao trono de Majapahit. Ele é datado de Jumahat-Manis, 9 Rabingulawal; o ano não é fornecido.

Retratos das doações do Rei Mindon em vários lugares, de 1853 a 1857

Este manuscrito birmanês (Or 13681), da Biblioteca Britânica, mostra sete cenas de doações do Rei Mindon em vários lugares, durante os quatro primeiros anos de seu reinado (1853 a 1857). O artista não apenas representou as sete diferentes cerimônias históricas e meritórias do Rei Mindon, como também descreveu o custo das doações reais em detalhes. O parabaik (livro dobrável) de meados do século XIX possui capa de couro vermelho, com a seguinte inscrição em letras douradas na capa “Retratos das doações do Rei Mindon em vários lugares, a partir do ano 1215, primeiro [volume I]”. (O calendário da era birmanesa começa em 638 d.C., portanto, 1215 da era birmanesa corresponde a 1853 d.C.). O nome Rainha Tharasein (Tharasein Mihpaya) aparece na etiqueta de papel pregada na contracapa do manuscrito. Em 1853, o rei e a rainha doaram um monastério (Waso kyaung) e uma casa de repouso (Za yat), incluindo árvores de oferenda aos monges em Ratanatheinka (Cena 1); o custo das doações foi de 3500 kyats. O rei e a rainha fizeram a segunda e terceira doações em 1854, em Amarapura, primeira capital da Birmânia. Eles deram a casa de repouso Thudhama (Thudhama za yat) e uma imagem de Buda em tijolos, forneceram refeições diárias a 70 monges no mês de wahso, e deram mantos monásticos (Wahso thin gan) e oito requisitos básicos (Payeithkaya shi pa) aos monges (Cenas 2 e 3). O Rei Mindon fez sua quarta doação em 1855, oferecendo vários presentes aos monges budistas de Amarapura (Cena 4). A quinta doação da casa real foi em 1856, em Amarapura. As doações incluíam um thein (salão de ordenação), dois sardaik bhi dho (arcas douradas para manuscritos), manuscritos de folhas de palmeira, camas decoradas com mosaicos de vidro e redes de mosquitos com laços dourados. A Cena 5 retrata os músicos e dançarinos que entreterão a realeza; os oficiais da corte e suas esposas também receberam presentes. O Rei Mindon fez sua sexta doação em 1857, em Mandalay, oferecendo o monastério Mingala Bon San e o salão de ordenações Dhamma Myitzu a Pyay Sayadaw. Na imagem (Cena 6), a realeza recebe homenagens e é entretida pela orquestra. Os monges também receberam os oito requisitos e outros prêmios. Em 1853, o rei ofereceu dois lagos (Zeya Nanda kan e Thiri Nanda kan) no povoado de Nyaung gan. Um ano mais tarde, em 1854, o rei também ofereceu lagos em Hsinte siyinsu, Amarapura (Cena 7).

Tratado de massagem

A medicina tradicional tailandesa é uma disciplina holística, que envolve o uso extensivo de tratamentos herbóreos indígenas e de massagens com pressão, combinados a aspectos de espiritualidade e bem-estar mental. Tendo sido influenciada pelos conceitos indianos e chineses de cura, a medicina tradicional tailandesa compreende a doença não como uma questão puramente física, mas também como um desequilíbrio entre o paciente e seu mundo social e espiritual. Os manuscritos médicos tailandeses escritos durante o século XIX fornecem uma ampla visão geral de diferentes métodos de tratamento e prevenção, de compreensão e conhecimento do corpo humano, da relação mente-espírito e das doenças. Em 1831, o Rei Rama III ordenou a compilação de vários tratados médicos a serem usados como material de ensino nas recém-criadas escolas reais de medicina, em Wat Phrachetuphon (Wat Pho) e Wat Ratcha-orot, em Bangkok. Wat Phrachetuphon se tornou formalmente a primeira escola médica real em 1889, e ainda hoje funciona como a Escola de Medicina Tradicional Tailandesa. O tratado apresentado aqui fornece instruções para a massagem e inclui 30 ilustrações do corpo humano, com pontos de massagem.

Ramayana

A origem da tradição oral da história birmanesa de Ramayana pode ser traçada desde o reinado do Rei Anawrahta (ativo entre 1044 e 1077), fundador do primeiro império birmanês. A história foi transmitida oralmente de geração a geração, antes de ter sido escrita em prosa, verso e como peça teatral. O exemplo mais antigo conhecido da versão birmanesa do Ramayana é o Rama Thagyin (Canções de Ramayana), compilado por U Aung Phyo em 1775. Uma cópia em três volumes da história de Rama, chamada Rama vatthu foi escrita em folha de palmeira em 1877. Este parabaik (livro dobrável) de cerca de 1870, tem 16 páginas, com cenas pintadas da história e Ramayana e legendas breves em birmanês. As capas de papel estão pintadas em vermelho, amarelo e verde, com bordas florais e leões saltando. Uma das capas tem uma inscrição em tinta preta em birmanês, com o título Rama Zat, e uma breve indicação do conteúdo, organizado da seguinte forma: Rama prepara o arco; o demônio Dusakhaya lutando; oferendas de esmolas; abdução na carruagem; construção da estrada elevada de pedra; chegada de Thiho (Ceilão, ou atual Sri Lanka). Apresentações dramáticas do Ramayana surgiram no Período Konbaung (1752 a 1885), quando o ministro real Myawaddy Mingyi U Sa converteu o Ramayana Jataka em uma peça teatral clássica birmanesa típica; ele também compôs a música temática e as canções para sua apresentação. Desde então, as apresentações do Ramayana se tornaram muito populares na cultura birmanesa, e Yama zat pwe (apresentações dramáticas do Rama) e encenações com marionetes são frequentemente realizadas. Cenas do Ramayana também podem ser encontradas como motivos e elementos estilísticos em objetos laqueados e entalhes em madeira birmaneses.

Anais malaios

Por volta de 1400, um príncipe de Sumatra chamado Parameswara fundou um assentamento na foz do Rio Melaka, na costa oeste da Península Malaia. Um de seus sucessores se converteu ao Islã, e o assentamento de Malaca logo cresceu e se tornou o maior reino islâmico do Sudeste da Ásia. Um centro de comércio de especiarias conhecido como “Veneza do Oriente”, a cidade atraiu mercadores de lugares longínquos como Arábia, Índia, China e Japão. A riqueza de Malaca se mostrou irresistível para os portugueses, que foram os primeiros europeus a navegar contornando o Cabo da Boa Esperança, até o Oceano Índico. Não satisfeitos em simplesmente se unir ao movimentado comércio local, os portugueses atacaram Malaca, capturando-a em 1511. O sultão malaio, Mahmud Shah, fugiu para o sul, até Johor. À medida que a corte exilada percebeu que seu exílio forçado em Johor não seria temporário, tornou-se cada vez mais urgente registrar para a posteridade as memórias ainda vívidas da magnificiência de Malaca. Foi concebida uma crônica que testemunharia que o sultão e seus familiares, então sediados nas margens superiores do Rio Johor, eram descendentes de grandes reis malaios, originados do sul de Sumatra, do antigo império de Srivijaya, e que haviam fundado em Malaca o mais rico entreposto do Sudeste Asiático. Acontece que o oficial da corte encarregado da tarefa, Tun Seri Lanang, era talvez o maior escritor malaio de todos os tempos, tendo produzido, no início do século XVII, o que hoje é visto como uma obra-prima da literatura malaia. Intitulada em árabe Sulalat al-Salatin (Genealogia dos reis), mas popularmente conhecida como Sejarah Melayu (Os anais malaios), esta obra não é apenas um triunfo literário, como também um manual da diplomacia malaia. Ela delineia o pacto solene entre o rei, que promete nunca humilhar seus súditos, e seu povo, que promete nunca cometer durhaka (traição). Mais de 30 manuscritos de Sejarah Melayu são conhecidos, com várias versões diferentes do texto, algumas elaboradas para apoiar as credenciais de outros reis malaios, alegando vínculos seus com a ilustre linha real de Malaca. A duradoura popularidade do Sejarah Melayu também provém das habilidades de seu autor ao lidar com episódios históricos centrais, reelaborando-os invariavelmente para conferir maior glória a Malaca. Em uma célebre anedota, quando uma delegação de Malaca visitou a China, todos tiveram de se curvar e não lhes foi permitido olhar no rosto do imperador. Quando o imperador perguntou o que gostariam de comer, os engenhosos malaios disseram kangkung (espinafre) não cortado, mas deixado em pedaços inteiros. Desta forma, comeram o kangkung levantando cada pedaço bem alto e, depois, baixando-o até suas bocas voltadas para cima, o que permitiu que levantassem a cabeça o suficiente para ver o imperador chinês.

O conto de Kiều

Truyện Kiều (O conto de Kiều), escrito por Nguyễn Du (1765 a 1820) é visto como o mais significativo poema da literatura vietnamita. Ele foi composto em Lục-bát (6 a 8) estrofes e seu título original em vietnamita é Ðoạn Trường Tân Thanh (Um novo pranto para o coração partido). No entanto, ele é mais conhecido como Truyện Kiều ou Kim Văn Kiều. A história tem como base um romance chinês Ming do século XVII, que Nguyễn Du conheceu enquanto estava em uma missão diplomática na China, em 1813. O enredo retrata as circunstâncias políticas e sociais caóticas do Vietnã no século XVIII, resultantes de conflitos políticos internos. O tema da história é a piedade filial, um dos princípios fundamentais do confucianismo. Ele relata a vida e os julgamentos de uma bela e talentosa jovem que sacrificou sua felicidade para salvar sua família desonrada. Ela teve de passar por muitos sofrimentos, como ter sido levada a se prostituir, casar-se com um homem que já era casado e ser expulsa de um santuário budista antes de finalmente se reunir com seu primeiro amor. No entanto, esta reunião não trouxe felicidade terrena a Kiều, que escolheu dedicar sua vida a servir a família, conforme as exigências da piedade filial. Críticos literários argumentam que o tema da história é uma alegoria da culpa e dos conflitos de interesse enfrentados por Nguyễn Du ao ter de trabalhar para o novo regime (a dinastia Nguyễn, 1802 a 1945), que havia estado indiretamente envolvida com a derrubada de seu antigo mestre. Este comportamento era inaceitável para a sociedade confuciana vietnamita tradicional, já que era considerado um equivalente da traição da piedade filial. Portanto, o tema da história era um lembrete doloroso para Nguyễn Du, que nasceu em uma família mandarínica conhecida e cujo pai havia servido como alto ministro sob a dinastia Le. A cópia do manuscrito do Truyện Kiều mantida na Biblioteca Britânica (número de referência Or 14844) foi finalizada por volta de 1894. Ela foi escrita em Chữ Nôm (caracteres sino-vietnamitas). Cada página é belamente ilustrada com cenas da história. Ela está encadernada em uma capa de seda de cor amarelo real, com padrões de dragões. Nguyễn Quang Tuấn, um estudioso vietnamita independente que inspecionou o manuscrito, opina que ele possui significância real, já que o dragão do centro tem cinco garras, o que normalmente é reservado para uso imperial. Outra característica significativa do manuscrito são as anotações de Paul Pelliot (1878 a 1945), renomado sinólogo francês que comprou o manuscrito em 1929.