18 de agosto de 2014

Fatwa sobre o milênio

Kashf ‘an mujawazat hadha al-ummah al-alf (Fatwa sobre o milênio) é parte de uma obra genealógica mais abrangente, Lubb al-Lulab fi Tahrir al-Ansab (A essência da construção de genealogias). Ela lida com os Últimos Dias na escatologia sunita. O fatwa (opinião jurídica) foi estimulado por uma questão trazida ao autor, al-Suyuti (1445 a 1505), quanto à ressurreição do Profeta Maomé, mil anos após sua morte. Al-Suyuti afirma que muitas pessoas estão interessadas na questão do milênio. Ele rejeita esta crença, dizendo que ela tem como base uma tradição batil (falsa). Sua sentença é baseada no testemunho de muitos transmissores confiáveis dos hadiths, ou daqueles que ouviram o Profeta falar. Na escatologia islâmica, os Últimos Dias ocorrerão em um momento não especificado. O fim do mundo islâmico inclui sequências familiares aos cristãos, mas difere pela introdução da figura de al-Mahdi. O Profeta Maomé não participa dos eventos finais. A crença também não tem fundamento, afirma al-Suyuti, porque faltam os sinais do Yawm al-Qiyamah (Dia da ressurreição), ou eles foram alterados por eventos históricos. O manuscrito está encadernado junto a três outras obras: Os segredos ocultos para pensar com clareza; Esboço em verso sem título sobre as obrigações islâmicas; e Memorando sobre a questão colocada pelo judeu quanto ao destino divino. Assim como ocorre com as outras obras encadernadas neste volume, o manuscrito inclui uma página de notas não associadas ao autor ou ao tema do texto. Neste caso, elas dizem respeito às propriedades médicas dos galos, com prescrições do uso do sangue ou de partes do corpo do animal como remédios contra a esterilidade, impotência e outros males.

Memorando sobre a questão colocada pelo judeu sobre o destino divino (Zikr Su’al al-Yahudi min al-Qadha’ wa-al-Qadr)

Este manuscrito curto contém manzumah (respostas em verso) a questões sobre o destino e a predestinação. A obra é anônima. Diz-se que esta área eternamente controversa da metafísica foi inaugurada por um estudioso religioso judeu não nomeado, que tendia à tese da predestinação. O autor desta obra define argumentos contra o determinismo estrito recorrendo ao que chama de ahl al-sunnah (pensadores ortodoxos). Ele mobiliza versos e citações de várias fontes para sua refutação, dois em particular, que cita longamente. A primeira delas é de Ibn Lubb al-Gharnati, sendo às vezes intitulada Taqyid fi Masa’il al-Qadha’ wa-al-Qadr (Investigação sobre a questão do destino divino). A segunda manzumah é atribuída a Jahm ibn Safwan, uma personalidade controversa dos primórdios do Islã. Esta é uma atribuição duvidosa, primeiramente porque não se sabe de nenhum rastro literário deixado por Ibn Safwan e, em segundo lugar, porque ele próprio era repudiado pelo ahl al-sunnah. A primazia do destino divino sobre o livre-arbítrio foi vista como tema de debate e discussão desde o nascimento da filosofia islâmica. O texto principal do manuscrito é acompanhado por notas marginais e comentários, ao final.

Estudo cuidadoso da revelação autêntica

Este manuscrito do século XIV, de uma obra de Abu Ishaq Ibrahim ibn Qurqul (1111 a 1174) é uma análise de problemas lexicais provenientes de textos canônicos sobre os hadiths de al-Bukhari e Muslim ibn al-Hajjaj. A obra de Ibn Qurqul foi modelada com base na obra mais conhecida de Qadi ‘Ayad, Mashariq al-Anwar `ala Sahih al-Athar (Uma luz de crepúsculo sobre a revelação autêntica). Esta é a terceira e última parte de um conjunto que começa com a letra ‘ayn e continua até o fim do alfabeto. O texto começa tipicamente com uma revisão da morfologia de uma palavra, seguida de instâncias em que a palavra foi usada por autoridades dos hadiths e por outros autores, finalizando com alguns poucos exemplos de como a palavra é usada em contexto. Ibn Qurqul nasceu na Andaluzia (na atual Espanha) e ensinou, pregou e escreveu em cidades da Península Ibérica e do Marrocos. Ele faleceu em Fez. Esta obra foi reimpressa várias vezes, mas nunca foi editada criticamente. O manuscrito tem 193 folhas numeradas, faltando os fólios 19 a 27. A primeira folha é decorada com uma moldura dourada ao redor do texto ornamental em negrito, que infelizmente está danificado, tornando-se ilegível. O restante do texto está em uma caligrafia naskh cuidadosa. A numeração das páginas não é contemporânea à cópia. Reparos e restaurações são aparentes no volume. O título, a nota do autor e o índice foram criados em uma data posterior.