Memorando sobre a questão colocada pelo judeu sobre o destino divino (Zikr Su’al al-Yahudi min al-Qadha’ wa-al-Qadr)

Este manuscrito curto contém manzumah (respostas em verso) a questões sobre o destino e a predestinação. A obra é anônima. Diz-se que esta área eternamente controversa da metafísica foi inaugurada por um estudioso religioso judeu não nomeado, que tendia à tese da predestinação. O autor desta obra define argumentos contra o determinismo estrito recorrendo ao que chama de ahl al-sunnah (pensadores ortodoxos). Ele mobiliza versos e citações de várias fontes para sua refutação, dois em particular, que cita longamente. A primeira delas é de Ibn Lubb al-Gharnati, sendo às vezes intitulada Taqyid fi Masa’il al-Qadha’ wa-al-Qadr (Investigação sobre a questão do destino divino). A segunda manzumah é atribuída a Jahm ibn Safwan, uma personalidade controversa dos primórdios do Islã. Esta é uma atribuição duvidosa, primeiramente porque não se sabe de nenhum rastro literário deixado por Ibn Safwan e, em segundo lugar, porque ele próprio era repudiado pelo ahl al-sunnah. A primazia do destino divino sobre o livre-arbítrio foi vista como tema de debate e discussão desde o nascimento da filosofia islâmica. O texto principal do manuscrito é acompanhado por notas marginais e comentários, ao final.

Estudo cuidadoso da revelação autêntica

Este manuscrito do século XIV, de uma obra de Abu Ishaq Ibrahim ibn Qurqul (1111 a 1174) é uma análise de problemas lexicais provenientes de textos canônicos sobre os hadiths de al-Bukhari e Muslim ibn al-Hajjaj. A obra de Ibn Qurqul foi modelada com base na obra mais conhecida de Qadi ‘Ayad, Mashariq al-Anwar `ala Sahih al-Athar (Uma luz de crepúsculo sobre a revelação autêntica). Esta é a terceira e última parte de um conjunto que começa com a letra ‘ayn e continua até o fim do alfabeto. O texto começa tipicamente com uma revisão da morfologia de uma palavra, seguida de instâncias em que a palavra foi usada por autoridades dos hadiths e por outros autores, finalizando com alguns poucos exemplos de como a palavra é usada em contexto. Ibn Qurqul nasceu na Andaluzia (na atual Espanha) e ensinou, pregou e escreveu em cidades da Península Ibérica e do Marrocos. Ele faleceu em Fez. Esta obra foi reimpressa várias vezes, mas nunca foi editada criticamente. O manuscrito tem 193 folhas numeradas, faltando os fólios 19 a 27. A primeira folha é decorada com uma moldura dourada ao redor do texto ornamental em negrito, que infelizmente está danificado, tornando-se ilegível. O restante do texto está em uma caligrafia naskh cuidadosa. A numeração das páginas não é contemporânea à cópia. Reparos e restaurações são aparentes no volume. O título, a nota do autor e o índice foram criados em uma data posterior.

Comentário sobre as distinções gramaticais

Este manuscrito, o Sharh al-hudud al-nahawiyah (Comentário sobre as distinções gramaticais), de Jamal al-Din Al-Fakihi (1493 ou 1494 a 1564 ou 1565), é um esclarecimento resumido de questões gramaticais. O autor, natural de Meca, passou parte de sua vida no Cairo. Não se sabe muito sobre sua vida, viagens ou ensino. Ele foi admirado por seus contemporâneos, mas seus estudos se limitavam a algumas poucas obras sobre gramática que não parecem ter tido um impacto duradouro neste campo. O Sharh é conhecido pelos títulos alternativos Sharh Kitab al-Hudud fi al-Nahw (Comentário sobre o livro “Distinções em gramática”) e Hudud al-Nahw (Distinções gramaticais). Este manuscrito permaneceu desconhecido dos estudiosos. As notas biográficas e bibliográficas que acompanham a edição do Sharh publicada em 1993 pelo estudioso egípcio Mutawalli al-Damiri, por exemplo, não contêm nenhuma menção ao manuscrito. Outras cópias do Sharh são mantidas em bibliotecas do Egito e da Arábia Saudita. O texto está em caligrafia naskh clara, com rubricas frequentes. Nenhum copista ou data é fornecido. O manuscrito está encadernado junto a três outras obras: o fragmento de um tratado sobre “Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso”; o Tratado e notas sobre orações; e Testemunhas: Comentário de Ibn ‘Aqil’s sobre o al-Alfiyah de Ibn Malik.

Os segredos ocultos para pensar com clareza

Kashf al-asrar ‘amma khafiya ‘an al-afkar (Os segredos ocultos para pensar com clareza) abrange vários tópicos de natureza escritural, devocional e ritual. O autor, Muḥammad ibn Aḥmad Ibn al-ʻImād al-Aqfahsī (1378 a 1462), afirma em sua introdução ao livro: “Eu forneço respostas a questões problemáticas e a obscuridades escondidas da mente racional dos cultos e dos sábios cujos pensamentos estão confusos a esse respeito.” Ele usa o formato de perguntas e respostas, em que coloca uma questão seguida de citações de autoridades mais antigas e de explicações ou interpretações próprias. Poucos detalhes são conhecidos sobre a vida ou a carreira de al-Aqfahasi, além do fato de ter nascido no povoado de Aqfahas (ou Iqfahas), no Médio Egito, e ter se mudado para o Cairo, onde estudou com o estudioso e professor ʻUmar ibn Raslān al-Bulqini (1324 a 1403). Al-Aqfahsi seguia a tradição jurídica shafi’i. Ele faleceu no Cairo. Diz-se que ele era kathir al-ittila’ (inteligente e culto), o que suas obras ainda existentes confirmam. Seus escritos abrangem uma variedade de tópicos. Eles incluem obras pastorais sobre o casamento, obras sobre alimentos e etiqueta à mesa, uma história natural dos animais e uma obra sobre a história do Rio Nilo. Este manuscrito do Kashf al-asrar foi escrito em caligrafia maghribi (Norte da África), com muitas rubricas. No início do volume, há uma página de notas em diferentes caligrafias, feita no ano de 1689. A última página do manuscrito apresenta notas sobre o ritual de oração na caligrafia naskh. Infelizmente, não há nenhum colofão com informações sobre onde ou quando a obra foi copiada. Ela está encadernada junto de outras obras, menores, também em caligrafia maghribi.

Esboço em verso sem título das obrigações islâmicas

Este manuscrito árabe sem título é uma urjūza (versificação) de Muqaddimat Ibn Rushd (Introdução de Ibn Rushd). Trata-se de uma obra sobre jurisprudência islâmica maliquita de Ibn Rushd al-Jadd (o avô), conhecido também como Abū al-Walīd Muḥammad ibn Aḥmad (1058 a 1126, aproximadamente), que não deve ser confundido com seu famoso neto, o filósofo Abu al-Walid Ibn Rushd (1126 a 1198). Esta versificação, comumente conhecida como Naẓm muqaddimat Ibn Rushd (A versificação da introdução de Ibn Rushd), é atribuída a ʻAbd al-Rahman ibn ʻAlī al-Ruqʿī al-Fāsī (faleceu em Fez, no atual Marrocos, no dia 2 de julho de 1455, aproximadamente). O poema descreve as obrigações do muçulmano em acompanhar os rituais fundamentais da religião, como a oração, o jejum, a doação de esmolas, a peregrinação e os procedimentos para ablução antes da oração. As prescrições estão detalhadas. Por exemplo, as estrofes sobre al-zakat (doação de esmolas) incluem a parcela adequada dos lucros com a agricultura e o cultivo de animais que deve ser separada, com instruções específicas quanto a produtos como tâmaras, azeitonas, óleo de oliva, gado e camelos. As seções sobre al-wudhu’ (ablução) fornecem detalhes específicos sobre as partes do corpo que devem ser limpas e em que ordem, a pureza da água usada no banho e o que fazer em locais sem água. O poema tem 19 páginas e está em caligrafia maghribi (Norte da África), com bordas ornamentais simples e os cabeçalhos dos tópicos em vermelho. O manuscrito está encadernado junto a três outras obras: Os segredos ocultos para pensar com clareza; Fatwa sobre o milênio; and Memorando sobre a questão colocada pelo judeu quanto ao destino divino.

Fatwa sobre o milênio

Kashf ‘an mujawazat hadha al-ummah al-alf (Fatwa sobre o milênio) é parte de uma obra genealógica mais abrangente, Lubb al-Lulab fi Tahrir al-Ansab (A essência da construção de genealogias). Ela lida com os Últimos Dias na escatologia sunita. O fatwa (opinião jurídica) foi estimulado por uma questão trazida ao autor, al-Suyuti (1445 a 1505), quanto à ressurreição do Profeta Maomé, mil anos após sua morte. Al-Suyuti afirma que muitas pessoas estão interessadas na questão do milênio. Ele rejeita esta crença, dizendo que ela tem como base uma tradição batil (falsa). Sua sentença é baseada no testemunho de muitos transmissores confiáveis dos hadiths, ou daqueles que ouviram o Profeta falar. Na escatologia islâmica, os Últimos Dias ocorrerão em um momento não especificado. O fim do mundo islâmico inclui sequências familiares aos cristãos, mas difere pela introdução da figura de al-Mahdi. O Profeta Maomé não participa dos eventos finais. A crença também não tem fundamento, afirma al-Suyuti, porque faltam os sinais do Yawm al-Qiyamah (Dia da ressurreição), ou eles foram alterados por eventos históricos. O manuscrito está encadernado junto a três outras obras: Os segredos ocultos para pensar com clareza; Esboço em verso sem título sobre as obrigações islâmicas; e Memorando sobre a questão colocada pelo judeu quanto ao destino divino. Assim como ocorre com as outras obras encadernadas neste volume, o manuscrito inclui uma página de notas não associadas ao autor ou ao tema do texto. Neste caso, elas dizem respeito às propriedades médicas dos galos, com prescrições do uso do sangue ou de partes do corpo do animal como remédios contra a esterilidade, impotência e outros males.

Correção de “O método”, i.e., “Minhaj al-talibin” de al-Nawawi

Este manuscrito abrange cinco volumes de uma obra em seis volumes (o volume dois está faltando) sobre a lei islâmica. Trata-se de um manual prático para juízes da tradição legal shafi’i. Ele oferece princípios e precedentes, com poucas das digressões linguísticas e de outra natureza encontradas frequentemente em escritos jurídicos. A obra abrange muitos tópicos, incluindo o tratamento de prisioneiros de guerra, bebidas alcoólicas e xadrez. O manuscrito é atribuído ao jurista ‘Umar ibn Raslan al-Bulqini (1324 a 1403), mas também pode ter sido escrito por outro dentre os vários estudiosos de sua família, não havendo indicação exata de autoria ou mesmo título. As opiniões jurídicas apresentadas na obra têm como base várias fontes, mas têm sua origem na Kitab al-Umm (al-Umm significa “o exemplar”), de Muhammad ibn Idris al-Shafi’i (767 ou 768 a 820) e Minhaj al-Talibin (um manual do século XIII da lei de herança shafi’i), de al-Nawawi. Esta obra nunca foi editada. O suposto autor foi o progenitor de uma família de juristas destacados, que às vezes são confundidos entre si na literatura biográfica. Sua reputação é a de ter sido o mais célebre juíz de sua época, cujas opiniões eram tão frequentemente requisitadas, que ele não teve tempo de finalizar muitas das obras que iniciou. Exceto pelo quarto volume, cada um deles tem como cabeçalho uma inscrição de waqf (dote), de um certo ‘Abd al-Basit ibn Khalil al-Shafi’i. Os volumes estão bem encadernados, com as folhas finais marmorizadas. O texto foi escrito por mais de um escriba. O quarto volume foi provavelmente copiado separadamente, em outro momento. Ele está gravemente danificado por traças e foi rasgado, faltando a declaração de dote.

Fragmento de um tratado sobre “Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso”

Este manuscrito é uma parte composta de 40 páginas de uma obra sobre a declaração pia “bi-ism Allah al-Rahman al-Rahim” (“Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso”), formalmente chamada de bismillah ou basmalah. O manuscrito contém muitas hashiyah (anotações marginais) de um autor desconhecido sobre o sharh (comentário) anônimo a uma obra maior, sem título, também de um autor desconhecido. Entoar o bismillah é, para um muçulmano, mais do que simplesmente relembrar o nome de Deus. Alguns comentaristas clássicos argumentam que o bismillah é parte integral do próprio Alcorão, já que todos os capítulos do Alcorão (com uma só excessão) começam com esta oração. A questão é discutida no manuscrito. O autor do comentário abrange tópicos como o uso do termo em al-kutub al-samawiyah (a Bíblia) e suas características linguísticas. Hoje, o muçulmano devoto inicia seu dia com esta frase, repetindo-a ao início de qualquer atividade. O bismillah também é um motivo artístico e arquitetônico usado desde os primórdios do Islã até o presente. O manuscrito foi escrito em caligrafia maghribi (Norte da África), e contém observações sobre quem o possuiu.

Comentário sobre Testemunhas: Comentário de Ibn ‘Aqil sobre o “al-Alfiyah”, de Ibn Malik

Este manuscrito é uma cópia do comentário de Ibn ‘Aqil (1294 a 1367, aproximadamente), sobre o famoso al-Alfiyah, de Ibn Malik, um poema de 1000 linhas sobre os princípios da gramática árabe. Tanto o al-Alfiyah quanto o comentário são textos padrão no currículo islâmico tradicional. O título do comentário, “Testemunhas”, refere-se à busca dos estudiosos por shawahid (testemunhas) antigas e confiáveis em quem se fiar para a autenticação da gramática e do léxico da língua árabe. Ibn Malik (faleceu em 1274) pretendia que seu poema fosse uma ferramenta de ensino, e não uma obra de pesquisa. O fato de que os estudantes tinham que memorizar 1000 versos gerou controvérsia nos tempos modernos quanto ao papel da memorização mecânica e da proliferação de comentários na pedagogia medieval. Não se sabe muito sobre o comentarista, Ibn ‘Aqil. Ele parece ter sido uma espécie de bon vivant, que morreu com dívidas. O manuscrito está em caligrafia norte-africana, com várias anotações. Ele está incompleto, faltando a primeira e a última página. Algumas páginas estão manchadas e a marginália foi gravemente danificada durante a encadernação. Manchas frequentes obscurecem o texto em alguns lugares. O conteúdo difere significativamente da primeira edição impressa da Editora Bulaq, no Cairo. O manuscrito está encadernado junto a três outras obras: Tratado e notas sobre orações; Comentário sobre distinções gramaticais, de al-Fakihi; e um fragmento de um tratado sobre “Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso”.

Tratado e notas sobre orações

Este manuscrito trata das orações usadas universalmente pelos muçulmanos. A primeira seção abrange o al-hamdu lil-Allah, recitado em muitas ocasiões quando se recorda a graça de Deus por algum benefício, como o regresso seguro de uma viagem. A frase significa, literalmente, “Louvado seja Deus”, e é usada em várias formas por pessoas de várias fés. Após discutir o significado e o uso à luz dos gramáticos Sibawayh e Khalil ibn Ahmad, pioneiros da linguística árabe do século VIII, o autor distingue entre o uso “adequado” e o falar cotidiano. A obra inclui a discussão sobre os mutaradifat (sinônimos) de louvor, como shukr (agradecimento), que irritam os comentaristas, em razão de sua perceptível redundância, mas até hoje encontram amplo uso em alguns dialetos árabes. O contraste entre a fala comum e a aderência estrita às regras gramaticais e lexicais é um dos temas do texto. A segunda seção do volume abrange outra oração, específica dos muçulmanos, a Salat ‘ala al-Nabi, (Bendições sobre o Profeta), usada em muitas ocasiões em memória da prioridade de Maomé na criação. A oração foi imposta aos muçulmanos pelo próprio Alcorão (33:56). Ela causou controvérsia por causa do paradoxo em se oferecer orações ao Profeta, em vez de simplesmente trazer à memória suas virtudes. O estudo cuidadoso de orações estabelecidas apresenta uma literatura bem desenvolvida e inclui grandes nomes da academia, pregação e misticismo islâmicos. O manuscrito foi escrito em caligrafia maghribi (Norte da África). Ele não possui título, autor, copista e data. A marginália se apresenta sob a forma de notas, em vez de um comentário completo. O manuscrito está encadernado junto a três outras obras: o fragmento do tratado sobre “Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso”; O Shawahid, de Ibn Aqil, com Comentário; e o Comentário sobre distinções gramaticais, de al-Fikihi.