História da literatura árabe

Jirjī Zaydān nasceu em Beirute, Líbano, em uma família síria ortodoxa de recursos modestos. Após uma experiência medíocre com as escolas locais, ele se mudou para o Egito, a fim de estudar na escola médica al-Qaṣr al-ʻAynī, mas abandonou a medicina em favor de uma carreira literária e editorial. Ele fundou a editora e gráfica Dar al-Hilal e, em 1892, passou a publicar a revista semanal al-Hilal, que é publicada até hoje. O jornal Al-Ahram e a al-Hilal se tornaram os veículos de comunicação mais longevos e influentes das causas nacionais egípcias e do progresso modernizante com base em modelos ocidentais. Zaydān foi uma das figuras mais influentes da mídia durante sua geração. Com Zaydān como editor, publicador e contribuidor, a al-Hilal atingiu uma ampla audiência regional. Seu compromisso com o orgulho nacional, a curiosidade intelectual e o empreendedorismo energético derivavam do livro Auto-ajuda, do autor escocês Samuel Smiles, que havia sido traduzido para o árabe em 1886. Zaydān não se limitou a jornais populares. Sua História da literatura árabe consiste em quatro volumes, dos quais os dois primeiros estão aqui apresentados, encadernados conjuntamente e abrangendo o período pré-islâmico do século XI. Em seu apoio à modernização, Zaydān ia contra alguns de seus contemporâneos, que afirmavam que ele era um maçon. A obra é ilustrada com gráficos extraídos de fontes europeias. Cada volume tem um índice e uma lista de preços dos livros de Zaydān disponíveis para venda, pessoalmente ou por correio. Estas características editoriais modernas dão à obra um caráter bastante diferente da tradição de manuscritos característica das primeiras obras da Editora Bulaq.

Guia do estudante

Zakarīyā ibn Muḥammad al-Anṣārī, um jurista da escola shafi’i, professor e sufi, nasceu no Egito e estudou em al-Azhar, o centro sunita islâmico de aprendizado no Cairo. Ao longo de sua longa carreira (ele viveu cerca de 100 anos), al-Anṣārī ocupou muitos cargos, como juiz e autoridade sufi. Ele é reconhecido como uma figura central na jurisprudência sunita medieval. Ele estudou com grandes professores da época e influenciou as gerações posteriores, sendo referido pelo título honorário Shaykh al-Islam. Manhaj al-Ṭullāb (Guia do estudante) é seu resumo da obra Minhaj, de Nawawi, uma grande referência jurídica a partir do século XIII. Ele foi seguido por comentários mais longos de vários autores e se tornou um texto de ensino padrão, que foi frequentemente reimpresso na Editora Bulaq e em outros lugares. A imprensa foi uma das principais instituições estabelecidas pelo suserano visionário Muḥammad ʻAlī (reinou entre 1805 e 1849). Fundada de acordo com princípios administrativos modernos, ela servia ao governo e aos indíviduos, produzindo obras sobre ciência, engenharia e história, além de clássicos literários e islâmicos. Esta cópia foi impressa na Editora Bulaq em 1868, sob a supervisão de seu diretor, Husayn Husni. O livro é imediatamente reconhecível por sua aparência, tipografia, papel e layout como um produto da famosa editora. O colofão é típico da época, contendo um longo encômio a Isma’il Pasha, que governou o Egito.

Coletânea de poesia

Nascido na região que hoje é a Província Oriental da Arábia Saudita, ‘Ali ibn al-Muqarrab (1176 ou 1177 a 1231 ou 1232) teve uma vida aventureira, a qual incluiu intrigas políticas e o envolvimento com o comércio, além das conquistas literárias. Tendo escrito no início do século XIII, diz-se que ele foi um dos últimos poetas anteriores à Era Moderna a compor no estilo clássico. Seu Diwan (Coletânea de poesia) é louvado tanto por suas qualidades históricas, como literárias. A obra é considerada uma fonte primária para o estudo da geografia e da história, além da geneaologia e de informações sobre as condições sociais e culturais de sua região. A tribo de al-Muqarrab’s, os al-‘Uyuni, governou partes da costa da Península da Arábia por mais de 150 anos, do século XI ao século XIII. Ambições políticas fracassadas fizeram com que al-Muqarrab fugisse para Bagdá e Moçul (atualmente no Iraque). O historiador ‘Abd al-Khalaq al-Janbi discute muitos dos pontos fortes e fracos de al-Muqarrab como historiador, observando que há grande confusão, em obras de referência, acerca do seu nome e da autoria de obras atribuídas a ele. Manuscritos do Diwan são encontrados em muitas bibliotecas do Ocidente e do Oriente Médio. A edição apresentada aqui foi impressa em Meca, no ano de 1889, e reimpressa em Mumbai, em 1892.

Segredo do sucesso

Samuel Smiles foi um autor e médico escocês. Ele saiu da escola aos 14 anos, mas retornou para finalizar seus estudos de medicina na Universidade de Edimburgo. Sua obra mais famosa, Auto-ajuda, que Ya’qub Sarrūf traduziu para o árabe, fez com que ele se tornasse uma celebridade e um dos autores mais vendidos de seu tempo. Sarrūf foi um dos primeiros graduandos da Universidade Americana de Beirute. Ele foi uma figura significativa no que se chamou de renascimento árabe da segunda metade do século XIX, tendo recebido um doutorado honorário de sua alma mater em 1890. Como editor, Ṣarrūf fundou revistas de interesses gerais, como al-Muqtaṭaf, em 1876, e al-Muqaṭṭam, em 1889. Foi ainda um ativo tradutor. Segredo do sucesso defende a auto-confiança como a chave para o desenvolvimento e a prosperidade. O livro inclui biografias de personalidades notórias e suas histórias de sucessos. Nesta edição, ele adiciona comentários e provérbios árabes pertinentes. Também estão incluídos índices e um glossários de termos ingleses. O livro foi publicado em Beirute no ano de 1880. Esta segunda edição revisada, impressa pela Editora Muqtataf no Cairo, em 1886, adiciona provérbios, citações e biografias de personalidades do Oriente e do Ocidente.

Ensaios literários de autores árabes clássicos

O estudioso jesuíta Louis Cheikho nasceu em Mardin, na Turquia, e foi educado na escola jesuíta de Ghazīr, no Líbano. Ele continuou associado ao seminário e à instituição que o sucedeu em Beirute, a Université Saint-Joseph, por toda sua vida. Cheikho estudou na Europa e, por fim, desfrutou de reputação mundial como semitista e autoridade sobre a Cristandade Oriental. Al-Machriq, o jornal que fundou em 1898, é um recurso central para os estudiosos destes campos. Ele é suplementado por Melanges de l’Université Saint-Joseph e Proche-Orient Chrétien, dos mesmos editores. A obra apresentada aqui, ‘Ilm al-Adab (Ensaios literários de autores árabes clássicos) é o segundo de dois volumes que contêm comentários sobre as principais autoridades em retórica e discurso público, como Averróis, Avicena e Ibn Khaldūn. A segunda parte da obra é dedicada à poética. Cheikho abre o assunto discutindo os comentários de Averróis sobre Aristóteles. A partir daí, ele abrange os vários objetivos do poeta, como o louvor, a persuasão, a apologia e a ridicularização, dando exemplos de cada um deles. A despeito de sua estatura como estudioso, Cheikho foi criticado por alguns aspectos de sua obra, que é vista por alguns como manchada de paroquialismo e preconceito. ‘Ilm al-Adab foi cuidadosamente impressa, com pontuação vocálica completa, notas de rodapé e índices.

Resumo da história dos árabes

Louis-Amélie Sédillot foi um astrônomo e orientalista francês, filho de Jean-Jacques Sédillot, que influenciou o garoto a perseguir os mesmos interesses. Sédillot, o Jovem, traduziu e publicou obras astronômicas árabes. Khulasat Tarikh al-‘Arab (Resumo da história dos árabes) é uma tradução e adaptação de ‘Ali Mubārak Pasha da Histoire des Arabes., de Louis-Amélie Sédillot. Mubārak é reverenciado como pai da educação moderna no Egito. Nascido em um vilarejo rural próximo ao delta do Nilo, ele se rebelou contra a qualidade da educação recebida no início de sua vida. Após mais anos mal-sucedidos de estudos no Cairo, ele finalmente foi escolhido para a educação em ciências militares no Cairo e na França. Ele voltou ao Egito após vários anos para trabalhar como engenheiro civil e, mais tarde, como supervisor da reforma do rudimentar sistema escolar egípcio. Ele também recebe o crédito pela fundação da Biblioteca e Arquivos Nacionais do Egito. O posto de basha (paxá) foi conferido pelos monarcas egípcios. Ele denota o mais alto posto na administração civil, ou o reconhecimento de um feito extraordinário no serviço público. A designação não implica nobreza e não era hereditária, exceto quando aplicada a homens da dinastia de Muḥammad ʻAlī Pasha. Khulasat Tarikh al-‘Arab é um esboço da história árabe, contando com um sumário, a introdução de Mubarak e um índice. Ela começa com a geografia da Arábia e a história árabe anterior ao profeta Maomé, abrangindo os costumes e conquistas da civilização árabe até a invasão napoleônica de 1798. Ela foi impressa na Editora Muḥammad Mustafa, no Cairo, em 1892.

Três coletâneas de provérbios e ditados

Este livro impresso foi publicado em 1883, na famosa Editora Jawa'ib, fundada pelo editor, autor e jornalista árabe Ahmad Fāris al-Shidiyāq. Como frequentemente ocorria com antigos livros impressos, a publicação em si recebeu mais atenção do que o conteúdo da obra. A Editora Jawa'ib foi fundada na capital otomana de Constantinopla (Istambul) em 1860, foi operada por cerca de 20 anos, publicando o jornal al-Jawa’ib (a partir de 1861), além de mais de 70 obras clássicas e tratados árabes. Os livros eram impressos em lotes de vários milhares de exemplares, sendo distribuídos por todo o império. Como o pai da editoração otomana, o etnicamente húngaro Ibrahim Müteferrika (1670 a 1745, aproximadamente), al-Shidiyāq vinha de fora das expectativas severamente estruturadas da cultura majoritária. A Editora Al-Jawa’ib pertence tanto à história cultural otomana, quanto à árabe. Amplamente negligenciado na pesquisa acadêmica, al-Shidiyāq tem recebido recentemente maior atenção biográfica, bibliográfica e literária. As três obras que compõem este volume são típicas coletâneas de provérbios e de “literatura sapiencial”, um gênero que continua a ocupar a imaginação popular e acadêmica. Elas são edições cuidadosas, mas não críticas, dos manuscritos originais, tendo sido certamente transcritas de obras que al-Shidyāq encontrou nas bibliotecas de Istambul ou transcreveu ao longo de suas viagens. Como é característico das obras desta editora, o volume foi impresso em um formato agradável e de fácil leitura. Há um colofão informativo que fornece os detalhes da produção. As três obras contidas no volume são Amthal al-‘Arab (Provérbios árabes), de Mufaḍḍal al-Dabbī, Asrar al-Hukama’ (Segredos dos sábios), atribuído ao famoso calígrafo Yāqūt al-Mustaʻṣimī, e uma coletânea de provérbios e anedotas sobre os “filósofos antigos”, mais notavelmente, Platão.

Discurso sobre a história universal

Esta obra é uma tradução para o árabe da história mundial de Jacques-Bénigne Bossuet’s, Discours sur l’histoire universelle (Discurso sobre a história universal), em que o autor argumenta em favor do direito divino dos reis. O livro de Bossuet, originalmente publicado em 1681, é visto como um pronunciamento clássico que define o monarca como a encarnação do Estado. Bossuet escreveu o livro em favor do príncipe herdeiro da França, tendo baseado seus argumentos em uma interpretação da história bíblica. A obra foi traduzida por ‘Abd Allah al-Bustāni. A tradução e a publicação foram encomendadas pelo Bispo Yūsuf ibn Ilyās al-Dibs, primaz do Líbano e presidente de al-Da’irah al-‘Ilmiyah (A Sociedade Científica). É difícil entender o motivo pelo qual o bispo escolheu esta obra, já que as circunstâncias políticas do Levante otomano no final do século XIX diferiam radicalmente das encontradas na França durante o século XVII. Ele pode tê-la aprovado por seu conteúdo edificante e julgado apropriado que fosse ensinada nas escolas sob sua jurisdição. A obra foi impressa na Editora Católica de Beirute, em 1882, que, naquela época, era administrada pelo Bispo al-Dibs. ‘Abd Allah al-Bustāni foi um escritor e professor de árabe católico maronita. Pouco se sabe sobre Shakir al-‘Awn, cujo nome aparece na folha de rosto como co-tradutor.

Coletânea de poesia de Ṣafī al-Dīn al-Ḥilli

Os estudiosos consideram al-Hilli um dos principais poetas da era pós-clássica, isto é, do período que se segue à queda do Império Abássida, em 1258. Sua Diwan (Coletânea de poemas) está dividida em 12 capítulos, que abrangem uma grande variedade de pessoas e ocasiões e narram em versos episódios de suas viagens com o regente egípcio mameluco Qalāwūn (falecido em 1290), durante sua campanha rumo a Mardin, no leste da Anatólia. Os poemas são precedidos por uma nota autobiográfica em saj’ (prosa rimada). Al-Hilli foi reconhecido como mestre de todas as formas da poesia clássica e popular, além de teórico da prosódia e da história literária. A presente coletânea exibe a habilidade do poeta ao mobilizar várias formas poéticas e temas. A obra foi impressa em Beirute em 1892, com o apoio do escritor e jornalista libanês Nakhlah Qalfāṭ. Não se sabe quem editou o texto ou quais manuscritos foram usados em sua preparação; mas, parece provável que Qalfat, que havia sido um vendedor de livros, tenha financiado a publicação, tendo em vista a amplitude de seus interesses literários e sua apreciação ao humor e à sátira, já que muitos dos poemas dizem respeito aos prazeres da vida. A obra foi impressa na Editora al-Adab, que pertencia ao professor e autor Amin al-Khuri. Ela foi bem impressa, considerando a irregularidade das estrofes e a necessidade de grande cuidado com a pontuação das vogais.

Lanternas acesas para o discernimento dos estudantes

Esta publicação de meados do século XIX é uma apostila básica de gramática e sintaxe da língua árabe. Escrita originalmente por Jirmānūs Farḥāt (1670 ou 1671 a 1732 ou 1733), ela foi editada pelo famoso professor e estudioso libanês Buṭrus al-Bustānī. Jirmānūs, bispo maronita de Alepo, compôs sua obra em um momento crítico da história do rito maronita da Igreja Católica, já que se buscava lhe dar uma identidade nacional. Com a ajuda de estudiosos e escritores, como Jirmānūs, uma solução foi encontrada no sistema de escrita Garshuni, isto é, o árabe nativo dos maronitas escrito em alfabeto siríaco, no caso das obras de liturgia e filosofia. Livros na língua siríaca eram traduzidos para o árabe, mas escritos com o alfabeto siríaco, e o siríaco-árabe resultante era chamado Garshuni ou Karshuni. Cerca de um século após Jirmānūs ter composto esta gramática, al-Bustānī editou e publicou o texto como um manual abrangente da língua árabe, constando apenas seu próprio nome na folha de rosto, embora ele seja explícito ao descrever a obra como um comentário ao texto original de Jirmānūs. A fim de enfatizar a transição do século XIX do sistema de escrita Garshuni para o árabe, a obra introduz o alfabeto árabe e as regras básicas para a vocalização das vogais curtas. Butrus al-Bustānī foi uma das principais figuras do renascimento árabe do século XIX. Como seu contemporâneo Ahmad Fāris al-Shidyāq, ele buscou desenvolver identidade pessoal e cultural no interior da sociedade otomano-islâmica. Diferentemente de al-Shidyāq, no entanto, ele se converteu ao protestantismo, e não ao Islã, influenciado, sem dúvidas, por seu contato com missionários americanos em Beirute. Esta cópia de Misbah al-Talib fi Bahth al-Matalib (Lanternas acesas para o discernimento dos estudantes) não fornece informações sobre sua publicação.