1 de novembro de 2012

História geral das coisas da Nova Espanha de Frei Bernardino de Sahagún: O Códice Florentino

Historia general de las cosas de nueva España (História geral das coisas da Nova Espanha) é um trabalho enciclopédico sobre o povo e a cultura da região central do México compilado por Frei Bernardino de Sahagún (1499–1590), um missionário franciscano que chegou ao México em 1529, oito anos após o término da conquista espanhola por Hernan Cortés. Normalmente chamado de Códice Florentino, o manuscrito chegou às mãos dos Médici antes de 1588 e está agora na Biblioteca Medicea Laurenziana em Florença. Sahagún iniciou suas pesquisas sobre culturas nativas na década de 1540, usando uma metodologia que os estudiosos consideram ser precursora das técnicas de campo antropológicas modernas. Seus motivos eram predominantemente religiosos: ele acreditava que para converter os nativos ao cristianismo e erradicar sua devoção a falsos deuses, era necessário compreender esses deuses e a influência que eles tinham sobre o povo asteca. Sahagún repudiava grande parte da cultura nativa, mas também passou a admirar muitas qualidades dos astecas. Como escreveu no prólogo do Livro I do seu trabalho, os mexicanos "são considerados bárbaros e de muito pouco valor; entretanto, em matéria de cultura e refinamento, na verdade estão um passo à frente de outras nações que julgam-se muito evoluídas." Sahagún conquistou a ajuda de dois importantes grupos nativos: o grupo dos anciãos de várias vilas no centro do México (principales) e o grupo de estudantes nahua e ex-alunos do Colégio de Santa Cruz em Tlatelolco, onde Sahagún trabalhou durante grande parte de sua estada no México. Os principales respondiam questionários preparados por Sahagún sobre sua cultura e religião, e suas respostas eram registradas na sua própria forma de escrita pictórica. Os estudantes nahua interpretavam as imagens e ampliavam as respostas, transcrevendo foneticamente o nauatle, usando letras do alfabeto latino. Sahagún, então, revisava o texto em nauatle e acrescentava sua própria tradução para o espanhol. O processo todo demorou quase 30 anos e, finalmente, foi concluído em 1575-1577, quando Sahagún preparou uma cópia nova e completa do manuscrito. Ela foi então levada para a Espanha por Frei Rodrigo de Sequera, chefe do serviço de intendência dos franciscanos e um defensor do trabalho de Sahagún. Os 12 livros do códice foram originalmente encadernados em quatro volumes, mas, posteriormente, subdivididos em três. O trabalho foi organizado em duas colunas: à direita, o texto original em náuatle, e à esquerda a tradução de Sahagún para o espanhol. As 2.468 magníficas ilustrações, feitas pelos estudantes, estão, na maior parte, na coluna da esquerda, onde o texto é mais curto. As ilustrações combinam características sintáticas e simbólicas da antiga tradição nahua de pintura-escrita com as qualidades formais da pintura renascentista europeia.

6 de novembro de 2012

O livro dos termos medicinais e nutricionais

Este manuscrito é uma cópia de Kitab Al-jami li-mufradat al-adwiya wa al-aghdhiya (O livro dos termos medicinais e nutricionais), uma enciclopédia alfabética de um autor andaluz, ‘Abd Allāh ibn Aḥmad ibn al-Bayṭār al-Mālaqī (entre 1197 e 1248, aproximadamente), contendo nomes e propriedades de mais de 1.000 plantas e substâncias de valor medicinal. O autor cita muitos cientistas anteriores, incluindo Dioscórides, Galeno e Avicena. Ibn al-Bayṭār nasceu em Málaga, daí a referência al-Mālaqī em seu nome, e o texto contém numerosas referências à Andaluzia e nomes de locais da Andaluzia, como Ronda. A presente cópia do manuscrito consiste de 91 páginas de 25 linhas cada e está incompleto, contendo apenas uma pequena fração do original. Conclui um tanto abruptamente próximo ao final das entradas que começam com a letra , no item bīsh. O texto original de Ibn al-Baytār diz nesse ponto: “Alguns médicos disseram que al-bīsh cresce em terras da China… eles o comem enquanto está verde na terra de Halāhal próxima a Sind." A última página do presente manuscrito tem um final falso com o seguinte texto modificado: "Eles o comem enquanto está verde, durante sete dias de manhã e à noite porque faz bem, como já dissemos." Presume-se que a alteração tenha sido feita para camuflar a natureza incompleta do manuscrito. O curto colofão diz: “Orações e paz ao nosso mestre Muhammad e sua família e seus companheiros. Este livro foi concluído com a ajuda do Senhor e a graça do Seu auxílio. Amém." O nome de Ibrahim Pasha (1789–1848), o filho mais velho de Muhammad Ali Pasha, renomado governador do Egito, aparece na capa como antigo dono deste manuscrito.

Uma tradução árabe das tabelas astronômicas de Ulugh Beg

Este manuscrito contém uma tradução de Yaḥyā ibn Alī al-Rifā‘ī dos séculos XV-XVI do persa para o árabe da introdução do celebrado zīj (tabelas astronômicas ou registros de ocorrências diárias) de Ulugh Beg (1394–1449). Na introdução do seu trabalho, al-Rifā‘ī declara que assumiu o projeto a pedido do astrônomo egípcio Shams al-Dīn Muḥammad ibn Abū al-Fatḥ al-Ṣūf ī al-Miṣrī (falecido por volta de 1494), que estava envolvido no estudo e na revisão do zij de Ulugh Beg para as coordenadas geográficas do Cairo. O presente manuscrito, cópia da tradução de al-Rifā‘ī, consiste de 29 páginas com 31 linhas por página. A página de título exibe os selos dos antigos donos, incluindo Uthmān al-Fanawī, um juiz do Egito, e Muḥammad ‘Alī Pāshā, o wālī (governante) do Egito durante o período de 1811 a 1848. O colofão indica que a transcrição foi concluída no final de Muḥarram, 1134 A.H. (meados de novembro de 1721) e dá o nome do escriba como Yūsuf ibn Yūsuf al-Maḥallī al-Shāfi‘ī, conhecido como al-Kalārjī. Anexo a este trabalho está outro manuscrito na mesma encadernação, mas com uma caligrafia diferente, que começa na página 43. O colofão ligeiramente distorcido para o segundo manuscrito indica que é também uma tradução árabe do persa de uma parte do zīj de Ulugh Beg, mas o tradutor, nesse caso, é Ḥasan ibn Muḥammad al-Faṣīḥī al-Niẓāmī, conhecido como Qāḍī Ḥasan (Juiz Ḥasan). A data da tradução parece ser o final de 1015 A.H. (1607) e esta cópia data de 1126 A.H. (1714). A declaração anterior sugere que a parte remanescente deste manuscrito baseava-se em uma tradução diferente daquela de Qāḍī Ḥasan.

A epístola introdutória sobre operações senoidais

Este manuscrito é uma cópia de al-Risāla al-Fatḥīya fī al-a‘māl al-jaybīya (A epístola introdutória sobre operações senoidais) de Muḥammad ibn Muḥammad ibn Aḥmad Abu ‘Abd Allāh, Badr al-Dīn (1423–1506), conhecido como Sibṭ al-Māridīnī ou neto de al-Māridīnī, em honra ao pai de sua mãe, um famoso astrônomo. O manuscrito consiste de 16 páginas de 14 linhas cada, e inclui uma introdução e 20 bābs (capítulos ou artigos). Os textos variam de algumas linhas a uma página e abrangem tópicos como a determinação das direções cardeais e a qibla (direção de Meca) usando o quadrante do seno. Sibt al-Māridīnī parece ter nascido em Damasco, mas viveu grande parte da vida no Cairo, onde trabalhou como muwaqqit (guardião do tempo) na Mesquita de Al-Azhar. Como seu avô, foi um autor prolífico e escreveu sobre muitos tópicos, incluindo fiqh (jurisprudência) e astronomia. Cópias manuscritas dos seus muitos trabalhos sobreviveram e cópias deste manuscrito existem em várias coleções europeias e do Oriente Médio. Somente o acervo da Biblioteca Nacional do Egito, a Dār al-Kutub, inclui dez cópias deste trabalho, sugerindo que ele pode ter sido um dos escritos mais populares do autor. A capa deste manuscrito contém a impressão do selo do estudioso e humanista egípcio curdo Aḥmad Taymūr (1871–1930), indicando que havia sido deixado como herança para a Dār al-Kutub por ele. A capa também tem um artigo, com a mesma caligrafia do texto principal, sobre etimologia da palavra al-jayb (a função seno) e uma curta nota na parte superior esquerda sobre a magnitude da função seno para diversos ângulos diferentes. Nessa introdução, o autor fornece um título alternativo para seu trabalho: Risāla fī al-‘amal bi al-rub‘ al-mujayyab (Epístola sobre a operação do quadrante do seno).

O livro dos tempos

Esta é a cópia de um manuscrito de Kitāb al-Azmān (O livro dos tempos, também conhecido como Kitāb al-Azmina) de Yuḥannā Ibn Māsawayh (falecido por volta de 857), o famoso médico da época abássida. O trabalho pertence à tradição de hemerologia islâmica—o estudo do calendário, especialmente para perceber a probabilidade de sucesso da realização de várias ações em uma determinada data ou hora. Na introdução, o autor declara: "As pessoas de conhecimentos e filosofia e os médicos da Pérsia, Índia e Rūm (Ásia Menor), disseram que o ano é divisível em quatro seções: primavera, verão, outono, [e] inverno. Depois, designaram para cada uma dessas seções três signos zodiacais e ,também para cada seção, as estações da lua (al-anwāʾ), que são sete. E eles expressaram para cada uma das suas partes componentes as ações que são oportunas para realização." Segue-se uma seção sobre cada estação, listando o número de dias, os signos zodiacais, as estações da lua e o humor galênico associado a cada estação, juntamente com a combinação apropriada das qualidades de calor, seca, frio e umidade. Na seção relativa ao inverno, lemos, por exemplo, que a estação lembra "água, pois é fria e molhada, e é nessa estação que a tosse é evocada, assim como a pleurisia". Uma seção mais longa se segue, listando al-shuhūr al-rūmīya (os meses romanos) na sua forma levantina, dando mais detalhes sobre o significado e as práticas comuns de cada dia. A entrada de Tishrīn al-awwal (outubro), por exemplo, indica que, no seu primeiro dia, o vento leste começa a soprar e as pessoas descem dos telhados, e que o décimo dia do mês é o dia em que Abraão saiu com seu filho para sacrificá-lo. Ibn Māsawayh afirma que deve-se minimizar as relações sexuais nesse mês e evitar a ingestão de melancia, pepino, creme de leite e carne de vaca, assim como grãos, exceto arroz. Ele também proíbe beber água fria nesse mês. O colofão do manuscrito atual não inclui a data, mas lista o nome do escriba como Ṣāliḥ Salīm ibn Salīm ibn Sa‘īd al-Shāmī al-Dimashqī. Esta cópia tem uma inscrição na capa com as palavras Maktabat Taymūr (biblioteca de Taymūr). Uma impressão de selo parcialmente legível contém o nome Taymūr e a data 1912, indicando que este manuscrito foi deixado como herança para a Dār al-Kutub (Biblioteca Nacional do Egito) pelo estudioso e humanista egípcio curdo Ahmad Taymūr (1871–1930.).

O livro de prova dos segredos da ciência dos pesos e medidas (parte 3)

Este manuscrito consiste de uma seção do Kitāb al-burhān fī asrār ‘ilm al-mīzān (Livro de prova dos segredos da ciência dos pesos e medidas) do alquimista persa Aydamur ibn ´Alī ibn Aydamur al-Gildakī (também visto como al-Jaldakī, falecido por volta de 1342). Seu nome indica que ele nasceu em Jaldak, atualmente, Afeganistão. No decorrer de 17 anos, al-Gildakī  viajou para o Iraque, Ásia Menor, África Ocidental, Egito, Iêmen, Hejaz e Síria. Essas viagens são recontadas em outro dos seus trabalhos, Kitāb nihāyat al-ṭalab fī sharḥ kitāb al-muktasab (Os limites da busca com relação à explicação do livro do [conhecimento] adquirido). Al-Gildakī' é considerado um dos últimos extraordinários alquimistas islâmicos. A primeira parte do seu Livro de prova trata em grande parte da relação entre o Criador e o mundo da criação, assim como relações entre planos mais altos e mais baixos de existência em suas várias manifestações. A segunda parte é sobre ‘Alī (genro do Profeta e figura central das tradições esotéricas do Islã) e o filósofo grego Apolônio de Tiana. A terceira parte é um comentário sobre Nihāyat al-ṭalab wa aqṣā ghāyāt al-arab (A busca máxima e o plano mais remoto) do persa Jābir ibn Ḥayyān (entre 737 e 815, aproximadamente). O trabalho também contém informações sobre a relação entre metais e seus planetas correspondentes e outros dados químicos. O presente manuscrito consiste da terceira parte do trabalho de al-Gildakī'. Porém, as primeiras páginas de texto estão faltando. O colofão nos fala a respeito da "conclusão dos escritos desta terceira parte do livro de... Aḥmad ibn Aḥmad ibn Ibrāhīm Jarībāt al-Shāfi‘ī al-Kātib al-Azharī a partir da cópia de Shaykh... Muḥammad ibn Abū al-Khayr al-Mālikī al-Miqātī al-Sharīf." O colofão também indica que o escriba concluiu o manuscrito no 29º dia de Muḥarram, 998 A.H. (9 de dezembro de 1589 d.C.). A primeira página remanescente ostenta o selo do Ministério de Dons Religiosos (awqāf), como item número 828 da biblioteca de Zakiya, identificando, assim, o manuscrito como uma herança do estadista egípcio Ahmad Zaki Pasha (1867–1934).