Bíblia de Cervera

Descrição

A Bíblia de Cervera está entre as mais antigas e importantes bíblias sefaraditas que sobreviveram à destruição da maior parte das comunidades judaicas nos reinos de Castela e Aragão, a partir de 1931, e à expulsão dos judeus da Espanha em 1492 e de Portugal em 1498. Um exemplo extremamente raro de paleografia hebraica ibérica de seu período, este manuscrito em pergaminho consiste em 451 fólios em duas colunas, cada uma com 31 linhas. Profusamente iluminado em dourado e diversas cores, com motivos moçárabes e judaicos, ele inclui os livros do Antigo Testamento, a Massorá (corpo de crítica textual das Escrituras Hebraicas, com notas sobre escrita, vocabulário, fontes alternativas, pronúncia e outros comentários) e um tratado gramatical, Sefer Ha-Nikud (O livro da vocalização, mais conhecido como Et Sofer, literalmente, “A pena do escritor”), escrito pelo Rabino David Kimhi (1160 a 1235, aproximadamente). O escriba que copiou o texto principal, Samuel Ben Abraham ibn Nathan, é identificado no colofão do anverso do fólio 434. Esta página também afirma que a obra foi executada em Cervera (atual Província de Lérida, na Catalunha, Espanha), tendo sido iniciada em 30 de julho de 1299 e finalizada em 19 de maio de 1300. Este colofão também incluía originalmente a identidade do patrono, que foi apagada posteriormente, provavelmente em razão da mudança de proprietário. A identidade do iluminador, Josef Asarfati, um judeu de origem francesa que se estabeleceu em Castela, pode ser encontrada no último fólio do códice, um colofão com letras zoomórficas, o que torna este um raro exemplo de um manuscrito hebraico que contém a assinatura explícita do artista. A identidade do escriba massorético (Josue ben Abraham ibn Gaon) também é conhecida, já que seu nome está gravado em 20 pontos diferentes do texto massorético. As iluminações estão espalhadas por várias molduras e exibem uma diversidade marcante de cores e formas. Elas incluem as bordas ornamentais das páginas, iluminuras de página inteira representando a iconografia judaica e iluminações menores que ilustram partes do Antigo Testamento, simbolizando seus diferentes livros ou retratando objetos do Tabernáculo usados na adoração. Algumas das iluminuras apresentam função amplamente decorativa (e.g., as cenas de caça e as drôleries). Muitas das iluminuras de página inteira são encontradas em tratados sobre gramática, onde emolduram o texto com motivos arquitetônicos, de animais e de figuras humanas. O texto massorético foi desenvolvido em caligrafia micrográfica, formando esquemas geométricos e motivos estilizados vegetais, animais e de animais mitológicos. A encadernação, com pastas de papel-cartão cobertas em couro vermelho com gravações em ouro e folhas em branco marmorizadas, data do século XVIII. O manuscrito foi adquirido em 1804, em Haia, por iniciativa de António Ribeiro dos Santos (1745 a 1818), bibliotecário-chefe da Real Biblioteca Pública da Corte, em Lisboa, pela soma de 240.000 réis.

Última Atualização: 17 de outubro de 2017